quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Ep.5 – Nada no bolso ou nas mãos

Kids by MGMT on Grooveshark

8h20 da manhã, em um apartamento não identificado no começo da Asa Sul:
O celular toca.
– Onde você está?
– Na Asa Norte, mãe…
– Na casa de quem? Você não ia dormir na Regina?
Maria Lúcia se espreguiça suavemente, espia ao redor e tenta disfarçar o sono na voz:
– Eu tô na casa da Robertinha, uma menina que conheci na festa.
– Como assim conheceu na festa? E a Regina? – A mãe não parece convencida.
– É que a Regina foi embora com meus documentos e meu dinheiro e eu vim pra cá com meus amigos.
– Que amigos?
– Ah, uns amigos meus e do Rei.
– Mas o Rei não é o melhor amigo do Alejandro Jaime? – Alejandro Jaime fora o primeiro namorado de Maria Lúcia, amor dos tempos de escola, assim como a amizade, ou, a princípio, inimizade com Túlio Reinaldo, que, à época, não gostava da menina e se mordia todo de ciuminho do melhor amigo com a namorada. A mãe acrescenta: – Ele nem gostava de você!
– Sim, mas agora gosta. Ele é meu amigo. Já faz um tempo, mãe…
– Tá, e ele tá aí?
– Não.
– Então como você foi parar aí?
– Eu vim com meus amigos da festa da semana passada. Ah, e a Robertinha é amiga de uma menina que estudou comigo. A Mari...
– Vem logo pra casa!
Malu ouve o bip-bip do celular, agora sem interlocutor do lado de lá. Embora possa parecer, não, ela não mentiu para a mãe em relação ao endereço. Nem teria por que, foi sincera demais no restante do diálogo. É que é difícil explicar o inesperado. Ela acredita de fato que está na Asa Norte e fica surpresa ao questionar a dona da casa quanto ao endereço e descobrir que, na realidade, encontra-se na Asa Sul.
A justificativa é simples: ela e os companheiros acabam de despertar para a manhã de domingo, após a terceira festa dos “bróders de balada” – como eles se intitularam – em uma semana. E que festas! Vocês se lembram das anteriores, certo? Pois é, agora multipliquem por três. Na tarde anterior, Maria Lúcia esbarrou com os novos amigos, outra vez, em mais um evento universitário. Vamos voltar um pouquinho no tempo...
Tarde de sábado, um dia após o episódio do pulo do gato.
Previsão de chuva, assim é janeiro no Planalto Central.
Maria Lúcia e Elis Regina entram no clube. Fizeram um acordo para aquele semestre: frequentariam todos os churrascos ofertados pelo cardápio de cursos da Universidade do Cerrado. Os churrascos, para quem não está a par, são festas, em sua grande maioria, nas quais ninguém vê resquícios de carne ou qualquer outra opção alimentícia. Em compensação, os organizadores servem os convidados com bebida para dar e vender. Álcool liberado para quem quiser se embriagar de juventude e inconsequências. O que, por acaso, costuma ser a intenção do público.
Nossas personagens não fogem à regra. Mal entram no recinto, já correm para o bar. Em frente ao balcão de bebidas, dá-se o encontro. Novamente, não programado. Mas parece que o céu de Brasília quer encostar no lago e vem mexendo uns pauzinhos para reunir essa turma e assistir de camarote suas confusões, que vão colocar a cidade de cabeça para baixo.
Miguel Octávio avista as meninas sem demora:
– Garotas! Vocês por aqui. Que prazer revê-las! Este é meu amigo, Luiz Dagoberto, exímio dançarino, um rapaz elegante, que esbanja charme e bom-humor. João Amazonas também está por aí, avulso.
Invariavelmente animado, Octávio carrega trejeitos de humorista. O amigo sorri, com timidez inicial. Mas, assim que o companheiro esclarece quem são as moças, ele sente-se à vontade para entrosar-se.
Luiz D. é, de fato, bonito e elegante. Contudo, não leva o menor jeito com as mulheres. Não sabe ao certo como abordar as pretendentes, sente-se coagido pelas moçoilas. É o que ocorre, por exemplo, na sequência da festa. Lá está ele, em frente ao banheiro, diante de uma jovem atraente, sem saber o que dizer. Quando dá por si, já soltou a pergunta:
– Com licença, uma informação. Onde fica o banheiro feminino?
Sua mente alcoolizada gira e mistura um turbilhão de ideias, até provocar-lhe náuseas. O que foi isso? O que ele fez? Eles estão exatamente na porta do banheiro, de um lado está o dos homens, do outro, o das mulheres. A placa com uma figura de saia na porta mais à direita não deixa dúvidas. “Ela vai pensar que sou retardado”, supõe. “Vai pensar que sou louco”. Ele se pune internamente pela desastrosa cantada, enquanto aguarda a reação da garota. Ela não hesita, agarra Luiz D. pelo pescoço e arranca-lhe um beijo estrondoso, repleto de fortes mordidas.
O rapaz está incrédulo. “Funcionou! A cantada do banheiro funcionou!” – pensa, ao mesmo tempo em que sente o ardor das mordiscadas da parceira. E não pode deixar de acrescentar aos pensamentos: “Ai, esta menina é uma mordedora!”.
Simultaneamente, porém, do outro lado da parede, Regina tira a roupa, apressada, com a ajuda de um rapaz alto, de bigode bem desenhado, que já se encontra despido. Ela e Malu têm esse acordo de frequentar todos os churrascos e o maior número possível de festas. O objetivo real do trato é aproveitar ao máximo este período da vida ou, em outros termos, a faculdade.
Quando morava no interior da Bahia, Regina sonhava em passar no vestibular na capital do país. O sonho voava longe e imaginava que, ao se realizar, ela poderia fazer o que quisesse, na hora que bem entendesse, como e com quem estivesse a fim. Sabem, liberdade. Ser universitária é ser livre. Por isso mesmo, no dia anterior, ela rompera o conturbado relacionamento que tinha com Teodoro. Queria sair da prisão e realizar todas as suas loucuras. Se enfiar no banheiro com um desconhecido era uma delas. Ou, se ontem não era, hoje acaba de tornar-se.
De volta ao balcão, Maria Lúcia pede outro chopp. Perdeu os amigos, mas isso pouco importa no momento. O importante mesmo é não ser encontrada por Vinícius de Moraes, o irmão do grande amigo de Adail Afonso ou, traduzindo para o contexto atual, o rapaz com quem ela fez a besteira de dar uns amassos e que agora quer repetir a brincadeira. O problema é que Malu não compartilha da mesma vontade. Quer é passar longe de confusão e, para isso, precisa manter distância de Adail Afonso e de todos os seus amigos e conhecidos.
Embora Adail permaneça mandando e-mails desesperados a fim de qualquer tipo de reconciliação, Malu jura que quer distância. Além do mais, por favor, né. E-mails? Quem em pleno 2011 utiliza-se de correio eletrônico para tentar reatar com a namorada? Já inventaram SMS, telefone e até campainha. “Não, pensando bem, que bom que ele não aparece na minha porta”, ela suspira de alívio. Depois, volta-se para o barman e solicita: “Duas tequilas, moço, por favor”. São pouco mais de 18h, a festa ainda está só no começo. Ela volta-se para a pista de dança, decidida – a quem? Na verdade, a qualquer coisa, só quer é tirar o ex da cabeça. Eis que uma potencial lembrança caminha até ela em passos largos. É Vinícius de Moraes, que está, aparentemente, ainda mais decidido.
– Malu, dança comigo?
– Vinícius... – ela contrai os lábios e olha discretamente para cá e para lá. Quer segurar a mão do primeiro conhecido que passar para evitar o diálogo com o jovem plantado diante dela.
– Estava com saudade de você – ele acrescenta, tentando tocá-la e aproximando-se cada vez mais.
– Vinícius, desculpa, mas você sabe muito bem que o que aconteceu entre nós não pode se repetir.
– Por que não pode? Foi bom. Eu gostei. Você gostou. Não tem por que não se repetir.
Não, ela não gostou. É péssima a sensação de buscar em outros rapazes todos o carinho que Afonsinho não pode – ou não quer, o que é mais doloroso de acreditar – lhe oferecer. Pior ainda é encontrar afeto em abraços alheios – como acontecera com Vinícius de Moraes – e rejeitar porque, no fundo, ela não quer substituir Adail Afonso. Quer a versão original. Mas Vinícius não pode saber disso. Neste instante, nem ela sabe direito. Ou, pelo menos, não admite.
– Porque é errado – responde, esquivando-se – Com licença, Vini, preciso procurar meus amigos.
Malu vira as duas doses de tequila e vai para a pista de dança sozinha mesmo. É hora de aproveitar a festa.
As horas se esvaem, a tequila borbulha nos corpos e os “bróders de balada” curtem o evento, cada um a sua maneira.
Por volta das 20h30, Maria Lúcia reencontra Elis Regina:
– Onde você estava? Procurei você em todo canto.
Regina tenta se recompor. Ajeita a saia e limpa os lábios com as costas da mão, na tentativa de tirar o batom borrado. Malu logo compreende.
– Quem é ele, safadinha?
– Você não conhece... Cadê os meninos? – Regina desvia, às pressas, o foco da conversa para outro assunto qualquer. Ela sempre faz isso. Nunca quer contar ou fazer nada, até ficar bêbada.
– Não sei, eu realmente procurei vocês pela festa inteira, por horas. E nada... Que tal a gente anunciar no microfone que estamos procurando por eles?
– No microfone? – Elis Regina acha a ideia da amiga engraçada.
– Sim... E aproveitamos para puxar papo com o cara gatinho da banda – Maria Lúcia aponta para o jovem ao lado da caixa de som, com um pandeiro na mão. Em seguida, vai para perto do palco, cutuca o rapaz e sussurra algo em seu ouvido.
Pouco depois, ele noticia ao microfone:
– Octávio, Octávio, suas amigas estão aqui no palco esperando por você, Octávio.
Contudo, nem assim Miguel Octávio aparece. Já Regina desaparece pela segunda vez. Agora, com João Amazonas. Na noite anterior, na casa de Mirela Miranda, os dois trocaram beijos e carícias. Os recentes acontecimentos fazem com que, ao cair da noite de sábado, nasça neles o desejo de repetir a dose. É o que fazem madrugada adentro, dessa vez, na casa de Elis Regina. Abandonam a festa, todavia, sem levar em conta um detalhe: ela está com os documentos e dinheiro de Maria Lúcia, já ele carrega nos bolsos todos os pertences de Miguel Octávio e Luiz Dagoberto.
Quando o relógio soa 22h e as luzes do salão se acendem, Malu reencontra os amigos.
– Miguel, Luiz, vocês viram a Regina? Ela está com as minhas coisas.
– Não vi. Também não vi o João, ele está com nossas vidas nos bolsos. Mas estou vendo, neste instante, o Ricardo Antônio aqui – Octávio puxa pelo braço um rapaz alto e muito bonito – Maria Lúcia, este é meu amigo e colega de faculdade, ele é modelo, 1 metro e noventa de pura formosura. E este é Ronaldão, amigo do Ricardo.
Enquanto o trio recém apresentado troca cumprimentos, Migule Octávio retira-se de fininho e vai, em pulos desengonçados, dialogar com outros grupos.
Malu inventa qualquer assunto com os colegas do amigo e pensa com seus botões: “Em uma coisa Octávio está coberto de razão, este tal de Ricardo Antônio é mesmo um metro e noventa da mais pura formosura. Que pitel!”.
Não demora muito, os seguranças começam a pedir aos convidados que se retirem , pois precisam fechar o espaço. Maria Lúcia junta-se a Luiz Dagoberto, que está com três meninas, aparentemente, tentando resolver um dilema.
– Aconteceu alguma coisa? – pergunta Malu, preocupada.
– Ô, Malu... – Luiz D. atenta-se para a presença da amiga – Esta aqui é a Robertinha! Minha grande amiga e colega de faculdade.
Robertinha é uma garota de sorriso simpático, cabelos negros e longos e baixa estatura. Luiz D. alimenta por ela uma espécie de paixão secreta e, até aquele dia, bastante discreta. Sendo sincera, talvez não se trate de paixonite, talvez seja só desejo ou mera curiosidade. O fato é que, até então, ele nem desconfiava que é correspondido. Mas, mais cedo naquela mesma noite, uma amiga de Robertinha, embriagada, fez o favor de revelar que o sentimento é mútuo, deixando Luiz D. nervoso e sem graça, só que disposto a tomar uma atitude.
– É o seguinte, Maria Lúcia, parece que a sua amiga e o meu amigo foram embora da festa com nossas coisas. E eles não vão voltar. – Luiz D. esclarece a situação, meio irritado com os companheiros, porém, sem deixar de se divertir.
– A Regina? E o João?
– Eles mesmos.
– Aaaah, eu vou matar a Elis Regina! – Maria Lúcia estremece de raiva. E agora? Não tem dinheiro para voltar para casa, muito menos carona. Não pode ligar para os pais, eles estão cuidando da irmã pequena, não vão querer busca-la. “Ai, ai, Elis Regina vive aprontando dessas e sou eu quem paga o pato”, resmunga consigo.
Luiz D. traz a solução:
– Olha, a Robertinha está sozinha em casa e ela disse que eu e o Miguel Octávio podemos ir pra lá. Posso conversar com ela, explicar que você também está sem teto.
– Por favor, Luiz D.! Não tenho nada no bolso ou nas mãos... – Maria Lúcia implora por ajuda.
Robertinha aceita de pronto os novos hóspedes e, juntamente com a amiga que já ia dormir em sua casa, acomoda todos no carro e dirige velozmente para algum lugar na Asa Sul.
A casa está vazia, parece que estão de mudança, mas a juventude se acomoda com facilidade. Miguel Octávio e Maria Lúcia jogam um colchão na sala, Robertinha e Luiz D. estendem cobertas no chão e a amiga da anfitriã usa uma cama que ainda perdura na residência.
Na sala:
Octávio abraça a amiga e prepara-se para interrogá-la.
– Qual é a história com o tal do Adail, Malu?
– Ah, nada demais. Ele é louco, sabe? Assim, de verdade, não é brincadeira não, já precisou de tratar mesmo.
Miguel Octávio não se mostra muito convencido. Ela conta algumas histórias, tentando persuadi-lo. Ele dá de ombros.
– E aquele outro rapaz? O com nome de compositor...
– Pois é, aquele, outra história complicada...
– É ele que não é tão, ahnn, como podemos dizer... Avantajado?
– Que? Como você sabe disso? Quem foi que te falou?
Octávio ri compulsivamente.
– É sério! Como você sabe? – Maria Lúcia está em pânico.
– Você não se lembra? A Mirela Miranda contou no “eu nunca” na casa dela. Além do mais, entre a gente não existe frescura nem segredos, somos uma rede.
– Uma rede?
– Sim, A rede!
Eles riem e Maria Lúcia explica a história, ilustrando o caso com os dedos.
Miguel Octávio, esperto que é, não perde tempo. Achega-se mais e mais perto da amiga. Quando a garota se dá por conta, estão quase dormindo, abraçados. Ela protesta:
– O que você tá fazendo? Para que dormir tão perto?
– Ué, “bróder de balada” também pode tirar casquinha... – justifica o rapaz.
Ela ri. Mas o afasta com um empurrão.
–Sai pra lá, Octávio, quero dormir.
Ele indigna-se:
– Aaaah, você sempre quer dormir!
Contudo, a garota nem escuta a reclamação, antes disso, pega no sono. Revoltado por Malu tê-lo deixado, pela segunda vez, falando sozinho, Miguel Octávio a empurra do colchão e vai até o corredor. Se ele não vai se dar bem, Luiz D. também não vai.
Ele chega no instante exato em que Robertinha está deitada sobre o peito do amigo e suas bocas estão a milímetros de distância, prontas para um romântico beijo. A seu modo octaviano, joga-se no meio dos dois, gritando sons desconexos. Estraga a cena de amor só para transformá-la em uma boa história de amizade. É que a trama agora é sobre isso, eles são um grupo de amigos que vivem inusitadas aventuras. Sem romances. Ao menos até o próximo capítulo.



terça-feira, 26 de novembro de 2013

Ep. 4 – Então, boa sorte

Breakout by Foo Fighters on Grooveshark


Soraia Cristina acordou decidida. De hoje não passaria. Ia fazer o maldito teste. A visita de Diego Leonardo no dia anterior havia sido perturbadora o suficiente para encorajá-la, ou, ainda, tirá-la completamente do eixo. Ela precisava apaziguar o espírito. Uma semana antes do natal, Diego ligou para contar que Gabi estava grávida de Fabrício. De repente, no meio da conversa, como de costume, ele começou a falar sobre os dois, perguntar por que haviam terminado, por que não poderiam voltar, e fez uma revelação.

— Você não está grávida também, Sol?

— Não! Por que tá me perguntando isso?

— Ah, sei lá, nunca entendi por que você resolveu terminar. Achei que, talvez, você pudesse ter terminado porque estava grávida.

— Que ideia...

— Sabe, na última vez que transamos, eu já estava sentindo que você ia terminar comigo de novo. Aí eu tive uma ideia maluca. Pensei em furar a camisinha, porque você não tava mais tomando remédio, aí, se você engravidasse, ficaríamos juntos pra sempre...

— Você o quê? – Soraia Cristina exclamou perplexa.

— Não fiz isso. Calma.

— Você é louco! Gente! Não acredito no que estou ouvindo! Você é louco! Eu nunca te perdoaria!

— Eu não te contaria...

— Você é louco! Você está doente! Precisa se tratar! – Soraia Cristina estava indignada – Vei, não tô acreditando nisso...

— Relaxa, Sol... um dia você vai entender...

— Entender o quê?

— Nada. Um dia você vai perceber... deixa estar...

— Não estou te entendendo. Perceber o quê? O que você fez? Do que você está falando?

— Um dia... um dia você vai perceber...

— Ok. Tenho que desligar.

Depois daquela conversa, Sol suspeitou que ele tivesse mesmo furado a camisinha, e que ela pudesse estar grávida. Durante algum tempo, sentiu os sintomas da gravidez. Estava atrasada, engordou dois quilos, sentia enjoos, não tinha vontade de comer e seus peitos estavam inchados e doloridos. Para piorar, para onde quer que olhasse, via anúncios de produtos para grávidas e bebês. E todo mundo parecia estar engravidando. Suas amigas, as namoradas dos amigos, as pessoas na rua, nos filmes, nas novelas. Para onde quer que olhasse, via grávidas e bebês. Aquilo só podia ser um sinal.

Estava naquela agonia havia semanas, mas não tinha coragem de fazer um teste. Só que, agora, aquela conversa voltou a perturbá-la. A visita de Diego Leonardo mostrou o quanto ele estava transtornado com o fim do relacionamento. Soraia resolveu, então, que faria o teste de gravidez.

Levantou, se arrumou e pegou um ônibus para a W3 Sul. Durante a viagem de uma hora entre Taguatinga o Pátio Brasil, Soraia Cristina só pensava em quando seria a melhor hora para comprar e fazer o teste. Decidiu que esperaria até às 10 horas, quando o shopping abrisse. Ela desceria da torre de salas empresariais onde fazia estágio até o centro comercial, compraria o teste na farmácia e o faria no banheiro do Pátio mesmo.

Chegou ao partido às 9h. Entre uma pesquisa e outra para a genealogia comunista ou para os verbetes da agenda da fundação do partido, Soraia sentia o estômago embrulhar de ansiedade. Mal conseguia se concentrar. O relógio do computador marcou 10 horas e ela achou que era melhor deixar para o fim do expediente. Seu chefe havia chegado e tinha muito trabalho a fazer. Aquela manhã estava sendo eterna. Às 13h, seu Inácio, chefe de Soraia, saiu para almoçar. Ela ficaria até às 14h. Mas seu estômago doía, ela não podia mais conter a ansiedade. Não havia mais ninguém no partido. Todos haviam saído para almoçar. Às 13h30, Soraia Cristina desligou o computador e estava trancando a sala, quando um rapaz surgiu, perguntando pelo Fábio da informática.

— Tá todo mundo almoçando.

— Ah, é que eu tenho uma entrevista com ele, às 14h. Mas ainda tá cedo.

Soraia Cristina ficou interessada no rapaz. Era a primeira vez que se interessava assim, de cara, por alguém que nunca tinha visto antes. Não era amor à primeira vista, mas, no momento em que olhou para ele, e trocaram as primeiras palavras, Sol se sentiu atraída por Juninho, um rapaz sorridente, de estatura mediana, cabelos escuros e lisos e barba por fazer. Mais do que atração, Sol teve uma sensação de identificação, como se eles já se conhecessem de outro lugar, ou de outras vidas. Ela ficou meio abobada, sem saber se ia embora ou se ficava ali, fazendo sala até o Fábio ou outra pessoa chegar.

— Err... eu tô indo embora, tenho que trancar a sala... mas...

— Tudo bem, não se preocupe, eu espero aqui fora.

— Então tá. – Soraia virou as costas e trancou a sala. – Então, boa sorte – e sorriu para Juninho.

 Obrigado – ele sorriu de volta.

Soraia atravessou o corredor em direção ao elevador sorrindo. Por alguns instantes esqueceu daquilo que a afligia e se sentiu leve e feliz. De repente ela não estava mais grávida de Diego Leonardo. O dia estava lindo, o sol brilhava maravilhosamente num céu inacreditavelmente azul para uma tarde de janeiro brasiliense. Janeiro costuma ser chuvoso no cerrado.

Quase desistiu de ir à farmácia comprar o teste. Ela estava convencida de que tudo ia bem, não estava grávida. Mas, se estava tudo bem, se o dia estava tão lindo, então aquele era o melhor dia para fazer o teste e poder ficar verdadeiramente leve. Foi à farmácia. A principal relutância em fazer o teste era justamente porque Sol morria de vergonha de comprar um teste de gravidez. Quase como se estivesse cometendo um delito, a menina esguia, com pouco mais de 1,50m de altura, entrou na farmácia usando óculos escuros, pegou um teste qualquer, pagou e procurou um banheiro no shopping onde pudesse fazê-lo.

O resultado deu positivo.

Soraia ficou parada, olhando para as duas linhas vermelhas do palitinho, tentando absorver aquele resultado. Depois de algum tempo, ela estava olhando na expectativa de que ele mudasse. De que uma das linhas desaparecesse. Não desaparecia. Leu toda a embalagem e o papel que vinha dentro da caixinha. Seu coração estava tão acelerado que parecia que seu peito ia explodir e o coração ia sair pulando pelo banheiro. Ela sentia que seu rosto estava vermelho de raiva. Sua cabeça começou a doer. Soraia deve ter ficado uns cinco minutos que pareceram uma eternidade dentro do espaço pequeno do banheiro, olhando para o teste e pensando em esganar Diego Leonardo. Ela queria bater com a cabeça dele na parede, queria arrancar cada pedaço dele com um alicate, queria amarrar Diego e tacar fogo.

Jogou o teste no lixo, saiu do banheiro, lavou as mãos, olhou-se no espelho, respirou fundo e saiu andando pelo Pátio Brasil, cega de raiva. Sua cabeça não parava. Um milhão de pensamentos por segundo. Soraia Cristina queria matar Diego Leonardo. Mas não simplesmente mata-lo. Tinha que ser uma morte lenta e dolorosa.

Entrou na farmácia novamente e comprou outro teste. Desta vez, não usava óculos escuros, mas estava tão, ou mais constrangida quanto da primeira vez. “Devem estar pensando que o teste deu positivo”, pensou.

Voltou ao banheiro e o teste deu negativo. “Eu devia ter comprado outro”. Soraia resolveu que não ia voltar pra comprar um terceiro teste. Ela também não estava podendo rasgar dinheiro. Decidiu que acreditaria no último teste. Mas, antes de chegar em casa, passou em outra farmácia, comprou um terceiro teste e o fez em casa. Deu negativo de novo. Sol respirou aliviada e concluiu que não estava grávida e que deveria, definitivamente, manter distância de Diego Leonardo. 



quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Ep. 3 – O pulo do gato e outras histórias

With A Little Help From My Friends by The Yellow Subs on Grooveshark

Maria Lúcia fita o celular, receosa. O aparelho vibra solitário na mesa e gera ruídos altos e compassados. Os dígitos finais são da casa dele. Não há dúvidas. Mas por quê? Por que diabos Afonsinho insistiria em telefonar diante de um término definitivo? Ora, já passam de meados de janeiro. Ele não dera as caras desde dezembro. A moça não soube de Adail Afonso por mais de mês. Nos feriados de Natal e Ano Novo, não encontrou resquícios do então bastante recente ex-namorado. Mas é sempre assim, ele faz questão de ser cruel – pensa ela. Logo quando começa a esquecê-lo, eis que surge Adail das cinzas, parece assombração. E agora essa...
Observa o aparelho com insegurança. Uma, duas, três chamadas não atendidas. Ele não muda, continua teimoso e persistente. Na quarta, ao terceiro toque, atende:
– Alô?
Adail responde com a voz mais dócil que consegue improvisar:
– Oi, Lucinha. Tudo bem? Quanto tempo. Estou com saudade de você...
Ela resiste, quer ser forte:
– O que você quer?
– Falar com você. Ouvir sua voz. Sinto sua falta.
– “Sentir falta é para quem sente vazio, só um buraco”, li isso outro dia. Sério, Adail, o que você quer?
– Você sempre com suas citações.
– Que você detesta...
Ele desvia o assunto e, como quem fala do tempo ou de qualquer outra banalidade, toca no assunto que o levou a procurar Malu:
– Soube que você foi à festa do Twitter no sábado.
– Como assim “soube”? – Ela põe-se na defensiva. Não quer que Adail saiba nada da vida dela, muito menos que se intrometa.
– Soube que você estava com outro cara, dançando.
Ela hesita por instantes. Mas é claro, Adail Afonso tinha um amigo na festa, o rapaz que a reconhecera na fila do banheiro. Brasília, essa capital de meia dúzia de habitantes.
– Não, Adail, eu não estava com outro cara. Estava apenas dançando e conhecendo gente nova. E, me desculpe, mas isso já não lhe diz respeito. – Ela retruca, com voz ríspida.
– Então você não está ficando com ninguém?
– Não é da sua conta. Tenho que desligar.
– Lucinha, sinto sua falta.
– Não, não sente. Você sente um vazio. Tchau, Adail.
A garota se apressa em encerrar a chamada. Dói admitir, mas Adail não é, definitivamente, o único a conviver com esse vazio. Ela também sente a maior falta dele. Todavia, a promessa de ano novo é manter distância de Afonsinho e de todos os seus amigos. Respirar novos ares. Conhecer e entrosar-se com outros grupos de amigos. Deixar o sofrimento em 2010.
Decidida, Maria Lúcia volta-se para o espelho e retoca o brilho labial. É sexta-feira. Dia de happy hour na Universidade do Cerrado, os estudantes de medicina convocam a comunidade acadêmica para comparecer a sua faculdade e prometem uma noite de muita diversão. Malu aposta que vai ser mesmo. Embora nem desconfie que o evento vá superar as expectativas.
A festa acontece no estacionamento externo da Faculdade de Medicina. Maria Lúcia chega acompanhada de Elis Regina e já na entrada, por completo acaso, esbarram as duas com Túlio Reinaldo. O jovem está animado, feliz em vê-las:
– Maluquete, Regina! Que coincidência encontrar com vocês aqui. Quer dizer, nem tanto, né? Vocês são tão ratas de festa quanto eu.
– Oi, Rei! Que bom te ver aqui!
Elas estão igualmente empolgadas frente a alta probabilidade de aventuras dado o encontro.
– Você está sozinho? – indaga Malu. Ela vive o medo constante de um dia dar o azar de ver Túlio Reinaldo na balada juntamente com algum de seus ex-namorados. O pânico cresce potencialmente quando lembra que as chances do episódio acontecer e envolver Adail Afonso são reais. Rei mantém contato próximo com a lista negra do passado de Maria Lúcia.
– Não, estou com o pessoal da festa do Twitter! Na verdade, estou com Miguel Octávio, mas ele trouxe um amigo gente boa, um tal de João Amazonas. E sabem aquela menina, ahn... Um pouco graúda que Octávio estava dando uns amassos no outro dia?
– Sim – elas afirmam em uníssono.
– Ela está aqui, atrás dele. Parece que se apaixonou. E, para piorar, ele esqueceu o celular no carro dela. O reencontro é inevitável... Ele está escondido, venham, vou levar vocês lá.
O grupo se desloca entre risadas e falas elevadas, todos sob o efeito de cevada e demais bebidas disponíveis no bar. Octávio está atrás de um prédio em construção do outro lado da rua, andando de um lado para outro, angustiado. Ao avistar os amigos, ele desabafa, em gestos largos e dramáticos, a fim de explicitar o desespero:
– Ela está apaixonada, meninas! Apaixonada em uma semana... E está com meu celular. O que eu vou fazer? Ela vai querer me agarrar. Vai querer me bater de novo...
Neste ponto, Malu não resiste, a curiosidade a obriga a interrompê-lo:
– Te bater? Ela te bateu na semana passada?
Ele soa ainda mais teatral:
– Sim! Foram tapas na cara, arranhõs, muita brutalidade. Um sexo selvagem até demais para mim.
Ninguém consegue segurar o riso. Mas Túlio Reinaldo tem uma ideia para ajudar o amigo a sair dessa.
– Já sei! Eu vou lá, falo com ela, pego o celular e está resolvido o dilema.
– Você faria isso por mim? – Octávio faz feição de choro, quer mostrar-se emocionado.
Rei dá dois tapinhas nas costas do amigo e vai de encontro a moça, que está no estacionamento, a sacudir a cabeça para lá e para cá, provavelmente em busca de Miguel Octávio.
– Oi, Samanta! – a entonação de Rei é a mais amigável possível.
– Túlio Reinaldo! Onde está o Octavinho?
– Está por aí, pela festa, sabe... Mas ele pediu para eu pegar o celular dele com você. Você trouxe?
Ela disfarça a decepção.
– Está aqui – entrega o aparelho como quem se empenha em praticar o desapego – Olha, ele deve pensar que estou apaixonada por ele. Não é bem assim, na realidade, foi tudo uma estratégia minha. Todas as mensagens ao longo da semana... Você deve entender, era tipo psicologia reversa. Eu não queria que ele se apegasse tanto a mim. Tentei assustá-lo.
O garoto balança a cabeça e concorda, ainda que esteja internamente as gargalhadas com a situação. Em seguida, inventa qualquer desculpa e despede-se às pressas de Samanta. A noite de sexta está só começando.
– Aqui está. – Rei estica o braço e entrega a Miguel o celular.
Túlio Reinaldo relata o diálogo com o amor de algumas horas do amigo e eles se põem a rir e compartilhar mais histórias e peripécias. Formam-se grupos menores de bate-papo e, em determinado momento, Rei e malu conversam a sós:
– Mudando de assunto, Maluquete, há tempos quero te perguntar uma coisa: que história foi aquele entre você e o Vinícius de Moraes?
Maria Lúcia estremece. Vinícius de Moraes é irmão de um grande amigo de Adail Afonso. Certa vez, ele a tirou para dançar em uma festa e desde então se dedica com afinco a conquistar a menina. Um dia, é verdade, Malu não poderia negar, ele obteve êxito. Entre uma briga e outra com Afonsinho, ela caiu nas garras do jovem com nome de compositor famoso. O ocorrido foi, por algum tempo, segredo absoluto. Não só Adail, mas também o irmão de Vinícius não iria gostar nada se soubesse – como, de fato, ao descobrir, não gostou. A época, somente Maria Lúcia, Vinícius e Túlio Reinaldo – que os pegara no flagra – estavam cientes do episódio.
Para o alívio da garota, o celular apita e interrompe o interrogatório. É Mirela Miranda, amiga e colega de faculdade de Maria Lúcia e Elis Regina. Ela está sozinha em casa e envia por escrito, via SMS, o convite: “venha para cá e traga quem quiser”. Eles têm, então, a chance de fugir dos labirintos que eles mesmos criaram e das complexas relações às quais optaram por se submeter, como Samanta e Vinícius de Moraes. Topam o chamado. Sem demora, deslocam-se até o Guará, onde vive a dona da residência liberada naquela noite. No local, tudo pertence a eles. A varanda, as estrelas, o vinho, o gato e o beliche do irmão dela – mas vamos chegar nisso mais a frente.
Após algumas partidas polêmicas de “eu nunca”, os casais começam a se organizar. Túlio Reinaldo e Mirela Miranda, que têm um caso oculto e eventual, visto que é motivo de constrangimento para ambas as partes – nenhum deles quer admitir que, às vezes, fica com o outro –, descem, discretamente, para o quarto. Surge um clima repentino e intenso entre Elis Regina e João Amazonas e, quando menos se espera, lá estão eles, aos beijos. Restam Malu e Octávio. Porém, a menina nem cogita qualquer envolvimento com o rapaz. São apenas amigos, bons amigos de uma semana. Miguel Octávio, por sua vez, não divide a mesma opinião com Maria Lúcia. Ele alimenta esperanças de, quem sabe, roubar um beijo da nova amiga de balada.
Não tendo nada mais divertido para fazer a não ser incomodar os demais, eles sentam no sofá da sala e tentam elaborar planos de como atrapalhar os amigos, enquanto ouvem o gato miar… Sim! É isso! O gato miando.
– Vamos colocar o gato no quarto? – sugere Octávio, com expressão de quem acaba de fazer a maior descoberta da década.
– Genial! Eles não vão entender nada.
Eles seguram o gato com cuidado, pois o bicho é grande e chega a ser assustador com seu miado desafinado. Abrem a porta do quarto soltando risinhos abafados, ansiosos para ver o que vai se desenrolar a partir dali.
No quarto:
Barulhos estranhos e exclamações ditas em sussurros somados ao miado do gato…
– Mas o que é isso? – Mirela questiona, confusa.
– Acho que é um gato.
Mais barulhos.
– Um gato?!? Tira ele daqui!
Os miados se intensificam e os barulhos também. Era a caça ao gato no interior do recinto. De repente, o bichano é jogado para fora dos aposentos.
A dupla de espectadores do lado de fora rola no chão de tanto rir. O plano fora bem sucedido! A traquinagem foi realizada com sucesso.
Já passa das três. Não é só a madrugada que chega ao ápice, com ela, vem o sono. Malu e Octávio acomodam-se no beliche do irmão de Mirela Miranda, os dois na parte superior, frente a não existência de cama embaixo. O jovem conta casos e mais casos e, animado, tenta levantar para gesticular, mas é interrompido com frequência pelo teto. Bate a cabeça mais de dez vezes e não desiste de falar sem parar. Não consegue entender por que na festa anterior não tinham ido ver o dia amanhecer.
–Mas, Octávio, quando a gente saiu de lá o dia já tinha amanhecido!
– Não importa, dava pra assistir o dia depois do amanhecer. Com aquele sol matinal…
A casa silencia. Malu dorme contente, conseguiu mesmo conhecer gente nova. Pelo visto, agora ela tem outro grupo de amigos, são os “bróders de balada”. No curto período de duas festas, ela se reinventa. Se dá conta, surpresa, de que seu celular agora está cheio de “últimas chamadas” de números pertencentes a pessoas que há uma semana ela nem sonhava que existiam. Na vida, as coisas acontecem muito rápido. Na balada, mais ainda.



terça-feira, 19 de novembro de 2013

Ep. 2 – Não te amo mais




Soraia Cristina estava ansiosa, atenta aos movimentos da rua. A qualquer momento uma buzina poderia anunciar a chegada da encomenda que tanto esperava. Era uma tarde da primeira semana de janeiro. Sol deveria ter ido trabalhar, afinal, foi por causa de seu estágio que voltou mais cedo de Cabo Frio e passou o réveillon em casa, sozinha, com dor de barriga. Mas a encomenda chegaria naquele dia, de acordo com o site dos Correios, e, se ela saísse de casa, não teria ninguém para receber – sua família estava passando as férias na casa de praia.


De repente, uma buzina.

– Casa 46, correio!

Soraia levanta de um salto da cadeira em frente ao computador e corre para a garagem. Recebe a encomenda com um largo sorriso no rosto. Entra em casa e, com as mãos trêmulas, abre o pacote. Sobre a caixa retangular preta, letras garrafais prateadas desejam: “Feliz natal! Feliz Rock in Rio”. A moça de cabelos castanhos e cílios compridos está radiante. Abre a caixa, pega o cartão e ensaia algumas fotos. Queria compartilhar o entusiasmo, mas não tem com quem. Em outros tempos, a primeira reação seria correr para o telefone e contar a Diego Leonardo. Mas, se ainda estivesse namorando Diego, provavelmente não estaria recebendo aquela encomenda, muito menos planejando a viagem. Soraia Cristina publica a foto no Twitter e pergunta para Tamires Raquel se o ingresso dela também chegou.

A campainha toca. Sol vai até a porta de vidro da sala, espiar quem está ao portão. Um rapaz mediano, gordinho, barbudo, vestindo um moletom cinza e um boné azul marinho espera na calçada. “É o Diego Leonardo?”, se pergunta Soraia. Volta para os fundos da casa, pega as chaves que estão em cima da mesa e sai pelo corredor lateral em direção à garagem. 

– Oi. – diz Soraia, abrindo o portão para Diego Leonardo.
– Oi Solzinha, tudo bem? – Diego a abraça.

Diego está tremendo. Ela fecha o portão desconcertada e o convida a entrar. “O que ele está fazendo aqui?”

– Eu estava passando aqui perto e fiquei com vontade de te ver.
– Aqui perto? Onde?

Ele não soube responder. Gaguejou.

– No... na... ia passar no Gelly, deixar... pegar um negócio. Ele não tava, aí pensei em vir aqui pra não perder viagem.


Ela estava de saco cheio das mentiras dele. Embora não se vissem havia mais de um mês, Soraia Cristina percebeu, com Diego ali diante dela, que não sentia mesmo a falta dele. O que sentia era a falta da amizade, da companhia, mas não da pessoa.

– Sorte sua, então, me encontrar em casa. Era pra eu estar viajando. Ou no Partido.

Eles já estavam no fundo da casa. Soraia Cristina perguntou se ele queria sentar, apontando a sala de TV. 

– Ah é, voltou mais cedo de Cabo Frio por causa do estágio?
– Sim.
– E por quê não foi trabalhar hoje?
– Tava esperando o ingresso do Rock in Rio chegar.
– Chegou?
– Sim, agorinha.
– Posso ver?
– Pode.
.
Soraia entrou pela cozinha e atravessou o corredor, em direção ao seu quarto. Diego a seguiu. Ela pegou a caixa em cima de sua cama e a entregou a Diego. Ele ainda estava trêmulo. Ao segurar a caixa, seu nervosismo ficou ainda mais evidente. Ele mal podia abri-la e pegar o cartão, do tanto que tremia.

– Você está bem?
– Que legal, Sol. Então você vai mesmo?
– Vou.
– Poxa, legal. Eu estou vendo se vou também. Tem uma galera querendo alugar uma casa...
– Legal.

Soraia riu por dentro. Desacreditava naqueles planos.

– Cadê todo mundo?
– Em Cabo Frio.
– Você voltou sozinha?
– Sim.
– Por quê?
– Por causa do estágio.
– Legal, Solzinha – Diego lhe estendeu a caixa com o ingresso. 

Era estranho ouvir Diego chamá-la de "Sol", "Solzinha", e não de "amor". Soraia pegou a caixa e jogou em cima da cama. Passou por Diego, que estava parado no mesmo lugar à porta de seu quarto e atravessou o corredor de volta, em direção à sala de TV. O rapaz, ainda trêmulo, a seguiu.

– E como está o estágio novo? Tá gostando?
– Sim. Meu chefe é um senhorzinho muito gente boa. Super inteligente e cheio de histórias. Ele foi segurança do Prestes. 
– Nossa! Que legal! 
– Sim. 
– Sinto sua falta, Sol.

Eles estavam sentados em sofás diferentes, um de frente para o outro.

– Não faz isso, Diego.
– Não faz isso o que? Como você quer que eu me sinta? É claro que vou sentir sua falta. Foram quatro anos, Sol. Quatro anos. Não dá pra esquecer de um dia pro outro. Você não pode me arrancar da sua vida assim!
– Tá vendo? É disso que estou falando. Para de me cobrar. Para de falar como se eu tivesse pegado quatro anos da sua vida e jogado fora. Eu não te amo mais e não é culpa minha. Eu não posso ficar com você só porque você diz que me ama e está sofrendo.
– Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que ca...
– Para com isso, Diego – pediu Soraia, virando os olhos, num tom de súplica com ares de tédio.
– Eu quero você – Diego segurou as mãos de Soraia Cristina, que desviou o olhar. – Desculpa.

Soraia soltou suas mãos das mãos de Diego e começou a brincar com as chaves.

– Sabe o que isso significa? – perguntou Diego.
– Isso o quê?
– Ficar brincando com as chaves.

Ela sorriu. Lembrou de um filme que haviam assistido juntos, em que um conselheiro amoroso explicava que quando a mulher fica brincando com as chaves diante da porta de casa, adiando sua entrada, ela quer um beijo.

– Pode significar várias coisas, depende do contexto.
– E o que significa agora, Sol?
– Não está óbvio pra você?

Diego Leonardo se aproximou de Soraia Cristina, que se desvencilhou. 

– É claro que não significa que eu quero um beijo.
– Então o que você quer?
– Que você vá embora.
– Odeio quando você me manda embora da sua casa. Odeio quando você faz essas coisas. Não sei por que eu insisto nisso, Sol. Eu gosto de você e me recuso a acreditar que você não me ama mais. Eu vou mudar. Eu mudei. Eu tentei fazer dar certo, mas você me tirou da sua vida. 
– Você tentou quando já era tarde.
– Para de falar como se só eu tivesse sido responsável pelo fim. Você também fez coisas ruins. Você também errou...
– Mas não sou eu que estou querendo voltar.

Soraia Cristina estava surpresa com sua frieza. Desde que haviam terminado, todas as outras vezes que conversaram, ela chorou diante dele. Mas, naquele dia, seus olhos estavam tão secos quanto seu coração. Soraia não sentia vontade de chorar, não havia arrependimento. Ela não estava mais confusa com relação a Diego. Se ela tinha alguma certeza, era que não queria voltar. O alívio que sentira na última vez que terminaram fora determinante para que ela percebesse que não o amava. Não o queria. Estava melhor ali, assim, sem ele. E já não era mais afligida pelo medo de nunca mais encontrar alguém que a amasse. Também não se sentia atraída por Diego.

Diego Leonardo já estava de pé. Soraia Cristina continuava brincando com as chaves.

– Tudo bem, Sol. Só não me diga para desistir. Porque eu não quero. Eu não vou.

Ele a abraçou e os dois ficaram envolvidos no meio da sala por longos segundos. Diego acariciou os cabelos lisos de Sol e fitou seus olhos castanhos. Ela desviou seus olhos dos olhos cor de mel dele. Diego tentou beijá-la. Ela se esquivou, mas estava pesa nos braços dele. Tentou empurrá-lo, no intuito de se desprender do abraço, mas Diego Leonardo a agarrou com mais força e quis beijá-la. Soraia Cristina o empurrava e pedia que a soltasse, enquanto ele a beijava pelo pescoço e rosto, numa tentativa desesperada de despertar um sentimento qualquer que ainda pudesse estar adormecido, escondido ou perdido em algum lugar, mas tudo que ela sentia era um misto de repulsa, angústia e vontade de sair dali.


– Me solta. Para com isso. Eu não quero. Por favor, para! Por favor! Por favor, vai embora.

Ele a soltou. Ela caminhou em direção à garagem e abriu o portão para Diego.