Maria Lúcia
fita o celular, receosa. O aparelho vibra solitário na mesa e gera ruídos altos
e compassados. Os dígitos finais são da casa dele. Não há dúvidas. Mas por quê?
Por que diabos Afonsinho insistiria em telefonar diante de um término
definitivo? Ora, já passam de meados de janeiro. Ele não dera as caras desde
dezembro. A moça não soube de Adail Afonso por mais de mês. Nos feriados de
Natal e Ano Novo, não encontrou resquícios do então bastante recente
ex-namorado. Mas é sempre assim, ele faz questão de ser cruel – pensa ela. Logo
quando começa a esquecê-lo, eis que surge Adail das cinzas, parece assombração.
E agora essa...
Observa o
aparelho com insegurança. Uma, duas, três chamadas não atendidas. Ele não muda,
continua teimoso e persistente. Na quarta, ao terceiro toque, atende:
– Alô?
Adail
responde com a voz mais dócil que consegue improvisar:
– Oi,
Lucinha. Tudo bem? Quanto tempo. Estou com saudade de você...
Ela resiste,
quer ser forte:
– O que você
quer?
– Falar com
você. Ouvir sua voz. Sinto sua falta.
– “Sentir
falta é para quem sente vazio, só um buraco”, li isso outro dia. Sério, Adail,
o que você quer?
– Você sempre
com suas citações.
– Que você
detesta...
Ele desvia o
assunto e, como quem fala do tempo ou de qualquer outra banalidade, toca no
assunto que o levou a procurar Malu:
– Soube que
você foi à festa do Twitter no sábado.
– Como assim
“soube”? – Ela põe-se na defensiva. Não quer que Adail saiba nada da vida dela,
muito menos que se intrometa.
– Soube que
você estava com outro cara, dançando.
Ela hesita
por instantes. Mas é claro, Adail Afonso tinha um amigo na festa, o rapaz que a
reconhecera na fila do banheiro. Brasília, essa capital de meia dúzia de
habitantes.
– Não, Adail,
eu não estava com outro cara. Estava apenas dançando e conhecendo gente nova.
E, me desculpe, mas isso já não lhe diz respeito. – Ela retruca, com voz
ríspida.
– Então você
não está ficando com ninguém?
– Não é da
sua conta. Tenho que desligar.
– Lucinha,
sinto sua falta.
– Não, não
sente. Você sente um vazio. Tchau, Adail.
A garota se
apressa em encerrar a chamada. Dói admitir, mas Adail não é, definitivamente, o
único a conviver com esse vazio. Ela também sente a maior falta dele. Todavia, a
promessa de ano novo é manter distância de Afonsinho e de todos os seus amigos.
Respirar novos ares. Conhecer e entrosar-se com outros grupos de amigos. Deixar
o sofrimento em 2010.
Decidida,
Maria Lúcia volta-se para o espelho e retoca o brilho labial. É sexta-feira.
Dia de happy hour na Universidade do Cerrado, os estudantes de medicina
convocam a comunidade acadêmica para comparecer a sua faculdade e prometem uma
noite de muita diversão. Malu aposta que vai ser mesmo. Embora nem desconfie
que o evento vá superar as expectativas.
A festa
acontece no estacionamento externo da Faculdade de Medicina. Maria Lúcia chega
acompanhada de Elis Regina e já na entrada, por completo acaso, esbarram as
duas com Túlio Reinaldo. O jovem está animado, feliz em vê-las:
– Maluquete,
Regina! Que coincidência encontrar com vocês aqui. Quer dizer, nem tanto, né?
Vocês são tão ratas de festa quanto eu.
– Oi, Rei!
Que bom te ver aqui!
Elas estão
igualmente empolgadas frente a alta probabilidade de aventuras dado o encontro.
– Você está
sozinho? – indaga Malu. Ela vive o medo constante de um dia dar o azar de ver
Túlio Reinaldo na balada juntamente com algum de seus ex-namorados. O pânico
cresce potencialmente quando lembra que as chances do episódio acontecer e
envolver Adail Afonso são reais. Rei mantém contato próximo com a lista negra
do passado de Maria Lúcia.
– Não, estou
com o pessoal da festa do Twitter! Na verdade, estou com Miguel Octávio, mas
ele trouxe um amigo gente boa, um tal de João Amazonas. E sabem aquela menina,
ahn... Um pouco graúda que Octávio estava dando uns amassos no outro dia?
– Sim – elas
afirmam em uníssono.
– Ela está
aqui, atrás dele. Parece que se apaixonou. E, para piorar, ele esqueceu o
celular no carro dela. O reencontro é inevitável... Ele está escondido, venham,
vou levar vocês lá.
O grupo se
desloca entre risadas e falas elevadas, todos sob o efeito de cevada e demais
bebidas disponíveis no bar. Octávio está atrás de um prédio em construção do
outro lado da rua, andando de um lado para outro, angustiado. Ao avistar os
amigos, ele desabafa, em gestos largos e dramáticos, a fim de explicitar o
desespero:
– Ela está
apaixonada, meninas! Apaixonada em uma semana... E está com meu celular. O que
eu vou fazer? Ela vai querer me agarrar. Vai querer me bater de novo...
Neste ponto,
Malu não resiste, a curiosidade a obriga a interrompê-lo:
– Te bater?
Ela te bateu na semana passada?
Ele soa ainda
mais teatral:
– Sim! Foram
tapas na cara, arranhõs, muita brutalidade. Um sexo selvagem até demais para
mim.
Ninguém
consegue segurar o riso. Mas Túlio Reinaldo tem uma ideia para ajudar o amigo a
sair dessa.
– Já sei! Eu
vou lá, falo com ela, pego o celular e está resolvido o dilema.
– Você faria
isso por mim? – Octávio faz feição de choro, quer mostrar-se emocionado.
Rei dá dois
tapinhas nas costas do amigo e vai de encontro a moça, que está no
estacionamento, a sacudir a cabeça para lá e para cá, provavelmente em busca de
Miguel Octávio.
– Oi,
Samanta! – a entonação de Rei é a mais amigável possível.
– Túlio
Reinaldo! Onde está o Octavinho?
– Está por
aí, pela festa, sabe... Mas ele pediu para eu pegar o celular dele com você.
Você trouxe?
Ela disfarça
a decepção.
– Está aqui –
entrega o aparelho como quem se empenha em praticar o desapego – Olha, ele deve
pensar que estou apaixonada por ele. Não é bem assim, na realidade, foi tudo
uma estratégia minha. Todas as mensagens ao longo da semana... Você deve
entender, era tipo psicologia reversa. Eu não queria que ele se apegasse tanto
a mim. Tentei assustá-lo.
O garoto
balança a cabeça e concorda, ainda que esteja internamente as gargalhadas com a
situação. Em seguida, inventa qualquer desculpa e despede-se às pressas de
Samanta. A noite de sexta está só começando.
– Aqui está.
– Rei estica o braço e entrega a Miguel o celular.
Túlio
Reinaldo relata o diálogo com o amor de algumas horas do amigo e eles se põem a
rir e compartilhar mais histórias e peripécias. Formam-se grupos menores de
bate-papo e, em determinado momento, Rei e malu conversam a sós:
– Mudando de
assunto, Maluquete, há tempos quero te perguntar uma coisa: que história foi
aquele entre você e o Vinícius de Moraes?
Maria Lúcia
estremece. Vinícius de Moraes é irmão de um grande amigo de Adail Afonso. Certa
vez, ele a tirou para dançar em uma festa e desde então se dedica com afinco a
conquistar a menina. Um dia, é verdade, Malu não poderia negar, ele obteve
êxito. Entre uma briga e outra com Afonsinho, ela caiu nas garras do jovem com
nome de compositor famoso. O ocorrido foi, por algum tempo, segredo absoluto.
Não só Adail, mas também o irmão de Vinícius não iria gostar nada se soubesse –
como, de fato, ao descobrir, não gostou. A época, somente Maria Lúcia, Vinícius
e Túlio Reinaldo – que os pegara no flagra – estavam cientes do episódio.
Para o alívio da garota, o celular apita e interrompe o
interrogatório. É Mirela Miranda, amiga e colega de faculdade de Maria Lúcia e
Elis Regina. Ela está sozinha em casa e envia por escrito, via SMS, o convite:
“venha para cá e traga quem quiser”. Eles têm, então, a chance de fugir dos labirintos
que eles mesmos criaram e das complexas relações às quais optaram por se
submeter, como Samanta e Vinícius de Moraes. Topam o chamado. Sem demora, deslocam-se
até o Guará, onde vive a dona da residência liberada naquela noite. No local, tudo
pertence a eles. A varanda, as estrelas, o vinho, o gato e o beliche do irmão
dela – mas vamos chegar nisso mais a frente.
Após algumas partidas polêmicas de “eu nunca”, os casais começam a
se organizar. Túlio Reinaldo e Mirela Miranda, que têm um caso oculto e
eventual, visto que é motivo de constrangimento para ambas as partes – nenhum
deles quer admitir que, às vezes, fica com o outro –, descem, discretamente,
para o quarto. Surge um clima repentino e intenso entre Elis Regina e João
Amazonas e, quando menos se espera, lá estão eles, aos beijos. Restam Malu e Octávio.
Porém, a menina nem cogita qualquer envolvimento com o rapaz. São apenas
amigos, bons amigos de uma semana. Miguel Octávio, por sua vez, não divide a
mesma opinião com Maria Lúcia. Ele alimenta esperanças de, quem sabe, roubar um
beijo da nova amiga de balada.
Não tendo nada mais divertido para fazer a não ser incomodar os
demais, eles sentam no sofá da sala e tentam elaborar planos de como atrapalhar
os amigos, enquanto ouvem o gato miar… Sim! É isso! O gato miando.
– Vamos colocar
o gato no quarto? – sugere
Octávio, com expressão de quem acaba de fazer a maior descoberta da década.
– Genial! Eles
não vão entender nada.
Eles seguram o gato com cuidado, pois o bicho é grande e chega a ser
assustador com seu miado desafinado. Abrem a porta do quarto soltando risinhos abafados,
ansiosos para ver o que vai se desenrolar a partir dali.
No quarto:
Barulhos estranhos e exclamações ditas em sussurros somados ao miado
do gato…
– Mas o que é
isso? – Mirela questiona, confusa.
– Acho que é um
gato.
Mais barulhos.
– Um gato?!? Tira
ele daqui!
Os miados se intensificam e os barulhos também. Era a caça ao gato
no interior do recinto. De repente, o bichano é jogado para fora dos aposentos.
A dupla de espectadores do lado de fora rola no chão de tanto rir. O
plano fora bem sucedido! A traquinagem foi realizada com sucesso.
Já passa das três. Não é só a madrugada que chega ao ápice, com ela,
vem o sono. Malu e Octávio acomodam-se no beliche do irmão de Mirela Miranda, os
dois na parte superior, frente a não existência de cama embaixo. O jovem conta
casos e mais casos e, animado, tenta levantar para gesticular, mas é
interrompido com frequência pelo teto. Bate a cabeça mais de dez vezes e não desiste
de falar sem parar. Não consegue entender por que na festa anterior não tinham
ido ver o dia amanhecer.
–Mas, Octávio,
quando a gente saiu de lá o dia já tinha amanhecido!
– Não importa,
dava pra assistir o dia depois do amanhecer. Com aquele sol matinal…
A casa silencia. Malu dorme contente, conseguiu mesmo conhecer gente
nova. Pelo visto, agora ela tem outro grupo de amigos, são os “bróders de
balada”. No curto período de duas festas, ela se reinventa. Se dá conta,
surpresa, de que seu celular agora está cheio de “últimas chamadas” de números
pertencentes a pessoas que há uma semana ela nem sonhava que existiam. Na vida,
as coisas acontecem muito rápido. Na balada, mais ainda.
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