Soraia Cristina acordou decidida. De hoje não passaria. Ia
fazer o maldito teste. A visita de Diego Leonardo no dia anterior havia sido
perturbadora o suficiente para encorajá-la, ou, ainda, tirá-la completamente do
eixo. Ela precisava apaziguar o espírito. Uma semana antes do natal, Diego
ligou para contar que Gabi estava grávida de Fabrício. De repente, no meio da conversa, como de costume, ele começou a falar sobre os dois,
perguntar por que haviam terminado, por que não poderiam voltar, e fez uma
revelação.
— Você não está grávida também, Sol?
— Não! Por que tá me perguntando isso?
— Ah, sei lá, nunca entendi por que você resolveu terminar. Achei que, talvez, você pudesse ter terminado porque estava grávida.
— Que ideia...
— Sabe, na última vez que transamos, eu já estava sentindo que você ia terminar comigo de novo. Aí eu tive uma ideia maluca. Pensei em furar a camisinha, porque você não tava mais tomando remédio, aí, se você engravidasse, ficaríamos juntos pra sempre...
— Você o quê? – Soraia Cristina exclamou perplexa.
— Não fiz isso. Calma.
— Você é louco! Gente! Não acredito no que estou ouvindo! Você é louco! Eu nunca te perdoaria!
— Eu não te contaria...
— Você é louco! Você está doente! Precisa se tratar! – Soraia Cristina estava indignada – Vei, não tô acreditando nisso...
— Relaxa, Sol... um dia você vai entender...
— Entender o quê?
— Nada. Um dia você vai perceber... deixa estar...
— Não estou te entendendo. Perceber o quê? O que você fez? Do que você está falando?
— Um dia... um dia você vai perceber...
— Ok. Tenho que desligar.
Depois daquela conversa, Sol suspeitou que ele tivesse mesmo
furado a camisinha, e que ela pudesse estar grávida. Durante algum tempo,
sentiu os sintomas da gravidez. Estava atrasada, engordou dois quilos, sentia
enjoos, não tinha vontade de comer e seus peitos estavam inchados e doloridos. Para
piorar, para onde quer que olhasse, via anúncios de produtos para grávidas e
bebês. E todo mundo parecia estar engravidando. Suas amigas, as namoradas dos
amigos, as pessoas na rua, nos filmes, nas novelas. Para onde quer que olhasse,
via grávidas e bebês. Aquilo só podia ser um sinal.
Estava naquela agonia havia semanas, mas não tinha coragem de fazer um teste. Só que, agora, aquela conversa voltou a perturbá-la. A visita de Diego Leonardo mostrou o quanto ele estava transtornado com o fim do relacionamento. Soraia resolveu, então, que faria o teste de gravidez.
Levantou, se arrumou e pegou um ônibus para a W3 Sul.
Durante a viagem de uma hora entre Taguatinga o Pátio Brasil, Soraia Cristina
só pensava em quando seria a melhor hora para comprar e fazer o teste. Decidiu
que esperaria até às 10 horas, quando o shopping abrisse. Ela desceria da torre
de salas empresariais onde fazia estágio até o centro comercial, compraria o teste
na farmácia e o faria no banheiro do Pátio mesmo.
Chegou ao partido às 9h. Entre uma pesquisa e outra para a
genealogia comunista ou para os verbetes da agenda da fundação do partido,
Soraia sentia o estômago embrulhar de ansiedade. Mal conseguia se concentrar. O
relógio do computador marcou 10 horas e ela achou que era melhor deixar para o
fim do expediente. Seu chefe havia chegado e tinha muito trabalho a fazer.
Aquela manhã estava sendo eterna. Às 13h, seu Inácio, chefe de Soraia, saiu
para almoçar. Ela ficaria até às 14h. Mas seu estômago doía, ela não podia mais
conter a ansiedade. Não havia mais ninguém no partido. Todos haviam saído para
almoçar. Às 13h30, Soraia Cristina desligou o computador e estava trancando a
sala, quando um rapaz surgiu, perguntando pelo Fábio da informática.
— Tá todo mundo almoçando.
— Ah, é que eu tenho uma entrevista com ele, às 14h. Mas ainda tá cedo.
Soraia Cristina ficou interessada no rapaz. Era a primeira
vez que se interessava assim, de cara, por alguém que nunca tinha visto antes.
Não era amor à primeira vista, mas, no momento em que olhou para ele, e
trocaram as primeiras palavras, Sol se sentiu atraída por Juninho, um rapaz sorridente,
de estatura mediana, cabelos escuros e lisos e barba por fazer. Mais do que
atração, Sol teve uma sensação de identificação, como se eles já se conhecessem
de outro lugar, ou de outras vidas. Ela ficou meio abobada, sem saber se ia
embora ou se ficava ali, fazendo sala até o Fábio ou outra pessoa chegar.
— Err... eu tô indo embora, tenho que trancar a sala...
mas...
— Tudo bem, não se preocupe, eu espero aqui fora.
— Então tá. – Soraia virou as costas e trancou a sala. – Então, boa sorte – e sorriu para Juninho.
— Obrigado – ele sorriu de volta.
Soraia atravessou o corredor em direção ao elevador
sorrindo. Por alguns instantes esqueceu daquilo que a afligia e se sentiu leve
e feliz. De repente ela não estava mais grávida de Diego Leonardo. O dia estava
lindo, o sol brilhava maravilhosamente num céu inacreditavelmente azul para uma
tarde de janeiro brasiliense. Janeiro costuma ser chuvoso no cerrado.
Quase desistiu de ir à farmácia comprar o teste. Ela estava
convencida de que tudo ia bem, não estava grávida. Mas, se estava tudo bem, se
o dia estava tão lindo, então aquele era o melhor dia para fazer o teste e
poder ficar verdadeiramente leve. Foi à farmácia. A principal relutância em
fazer o teste era justamente porque Sol morria de vergonha de comprar um teste
de gravidez. Quase como se estivesse cometendo um delito, a menina esguia, com
pouco mais de 1,50m de altura, entrou na farmácia usando óculos escuros, pegou
um teste qualquer, pagou e procurou um banheiro no shopping onde pudesse
fazê-lo.
O resultado deu positivo.
Soraia ficou parada, olhando para as duas linhas vermelhas
do palitinho, tentando absorver aquele resultado. Depois de algum tempo, ela
estava olhando na expectativa de que ele mudasse. De que uma das linhas
desaparecesse. Não desaparecia. Leu toda a embalagem e o papel que vinha dentro
da caixinha. Seu coração estava tão acelerado que parecia que seu peito ia
explodir e o coração ia sair pulando pelo banheiro. Ela sentia que seu rosto
estava vermelho de raiva. Sua cabeça começou a doer. Soraia deve ter ficado uns
cinco minutos que pareceram uma eternidade dentro do espaço pequeno do
banheiro, olhando para o teste e pensando em esganar Diego Leonardo. Ela queria
bater com a cabeça dele na parede, queria arrancar cada pedaço dele com um
alicate, queria amarrar Diego e tacar fogo.
Jogou o teste no lixo, saiu do banheiro, lavou as mãos,
olhou-se no espelho, respirou fundo e saiu andando pelo Pátio Brasil, cega de
raiva. Sua cabeça não parava. Um milhão de pensamentos por segundo. Soraia
Cristina queria matar Diego Leonardo. Mas não simplesmente mata-lo. Tinha que
ser uma morte lenta e dolorosa.
Entrou na farmácia novamente e comprou outro teste. Desta
vez, não usava óculos escuros, mas estava tão, ou mais constrangida quanto da
primeira vez. “Devem estar pensando que o teste deu positivo”, pensou.
Voltou ao banheiro e o teste deu negativo. “Eu devia ter
comprado outro”. Soraia resolveu que não ia voltar pra comprar um terceiro
teste. Ela também não estava podendo rasgar dinheiro. Decidiu que acreditaria
no último teste. Mas, antes de chegar em casa, passou em outra farmácia,
comprou um terceiro teste e o fez em casa. Deu negativo de novo. Sol respirou
aliviada e concluiu que não estava grávida e que deveria, definitivamente,
manter distância de Diego Leonardo.
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