8h20
da manhã, em um apartamento não identificado no começo da Asa Sul:
O celular toca.
– Onde você está?
– Na Asa Norte, mãe…
– Na casa de quem? Você não ia dormir na Regina?
Maria
Lúcia se espreguiça suavemente, espia ao redor e tenta disfarçar o sono na voz:
– Eu tô na casa da Robertinha, uma menina que conheci na festa.
– Como assim conheceu na festa? E a Regina? – A mãe não parece
convencida.
– É que a Regina foi embora com meus documentos e meu dinheiro e
eu vim pra cá com meus amigos.
– Que amigos?
– Ah, uns amigos meus e do Rei.
– Mas o Rei não é o melhor amigo do Alejandro Jaime? – Alejandro
Jaime fora o primeiro namorado de Maria Lúcia, amor dos tempos de escola, assim
como a amizade, ou, a princípio, inimizade com Túlio Reinaldo, que, à época,
não gostava da menina e se mordia todo de ciuminho do melhor amigo com a
namorada. A mãe acrescenta: – Ele nem gostava de você!
– Sim, mas agora gosta. Ele é meu amigo. Já faz um tempo, mãe…
– Tá, e ele tá aí?
– Não.
– Então como você foi parar aí?
– Eu vim com meus amigos da festa da semana passada. Ah, e a
Robertinha é amiga de uma menina que estudou comigo. A Mari...
– Vem logo pra casa!
Malu ouve o bip-bip do celular, agora sem interlocutor do lado
de lá. Embora possa parecer, não, ela não mentiu para a mãe em relação ao
endereço. Nem teria por que, foi sincera demais no restante do diálogo. É que é
difícil explicar o inesperado. Ela acredita de fato que está na Asa Norte e fica
surpresa ao questionar a dona da casa quanto ao endereço e descobrir que,
na realidade, encontra-se na Asa Sul.
A justificativa é simples: ela e os companheiros acabam de
despertar para a manhã de domingo, após a terceira festa dos “bróders de
balada” – como eles se intitularam – em uma semana. E que festas! Vocês se lembram
das anteriores, certo? Pois é, agora multipliquem por três. Na tarde anterior,
Maria Lúcia esbarrou com os novos amigos, outra vez, em mais um evento
universitário. Vamos voltar um pouquinho no tempo...
Tarde
de sábado, um dia após o episódio do pulo do gato.
Previsão
de chuva, assim é janeiro no Planalto Central.
Maria
Lúcia e Elis Regina entram no clube. Fizeram um acordo para aquele semestre:
frequentariam todos os churrascos ofertados pelo cardápio de cursos da
Universidade do Cerrado. Os churrascos, para quem não está a par, são festas,
em sua grande maioria, nas quais ninguém vê resquícios de carne ou qualquer
outra opção alimentícia. Em compensação, os organizadores servem os convidados
com bebida para dar e vender. Álcool liberado para quem quiser se embriagar de
juventude e inconsequências. O que, por acaso, costuma ser a intenção do
público.
Nossas
personagens não fogem à regra. Mal entram no recinto, já correm para o bar. Em
frente ao balcão de bebidas, dá-se o encontro. Novamente, não programado. Mas
parece que o céu de Brasília quer encostar no lago e vem mexendo uns pauzinhos
para reunir essa turma e assistir de camarote suas confusões, que vão colocar a
cidade de cabeça para baixo.
Miguel
Octávio avista as meninas sem demora:
–
Garotas! Vocês por aqui. Que prazer revê-las! Este é meu amigo, Luiz Dagoberto,
exímio dançarino, um rapaz elegante, que esbanja charme e bom-humor. João
Amazonas também está por aí, avulso.
Invariavelmente
animado, Octávio carrega trejeitos de humorista. O amigo sorri, com timidez
inicial. Mas, assim que o companheiro esclarece quem são as moças, ele sente-se
à vontade para entrosar-se.
Luiz D. é, de fato, bonito e elegante. Contudo, não leva o menor jeito com as
mulheres. Não sabe ao certo como abordar as pretendentes, sente-se coagido
pelas moçoilas. É o que ocorre, por exemplo, na sequência da festa. Lá está
ele, em frente ao banheiro, diante de uma jovem atraente, sem saber o que dizer.
Quando dá por si, já soltou a pergunta:
–
Com licença, uma informação. Onde fica o banheiro feminino?
Sua
mente alcoolizada gira e mistura um turbilhão de ideias, até provocar-lhe
náuseas. O que foi isso? O que ele fez? Eles estão exatamente na porta do
banheiro, de um lado está o dos homens, do outro, o das mulheres. A placa com
uma figura de saia na porta mais à direita não deixa dúvidas. “Ela vai pensar
que sou retardado”, supõe. “Vai pensar que sou louco”. Ele se pune internamente
pela desastrosa cantada, enquanto aguarda a reação da garota. Ela não hesita,
agarra Luiz D. pelo pescoço e arranca-lhe um beijo estrondoso, repleto de
fortes mordidas.
O
rapaz está incrédulo. “Funcionou! A cantada do banheiro funcionou!” – pensa, ao
mesmo tempo em que sente o ardor das mordiscadas da parceira. E não pode deixar
de acrescentar aos pensamentos: “Ai, esta menina é uma mordedora!”.
Simultaneamente,
porém, do outro lado da parede, Regina tira a roupa, apressada, com a ajuda de
um rapaz alto, de bigode bem desenhado, que já se encontra despido. Ela e Malu
têm esse acordo de frequentar todos os churrascos e o maior número possível de
festas. O objetivo real do trato é aproveitar ao máximo este período da vida
ou, em outros termos, a faculdade.
Quando
morava no interior da Bahia, Regina sonhava em passar no vestibular na capital
do país. O sonho voava longe e imaginava que, ao se realizar, ela poderia fazer
o que quisesse, na hora que bem entendesse, como e com quem estivesse a fim.
Sabem, liberdade. Ser universitária é ser livre. Por isso mesmo, no dia
anterior, ela rompera o conturbado relacionamento que tinha com Teodoro. Queria
sair da prisão e realizar todas as suas loucuras. Se enfiar no banheiro com um
desconhecido era uma delas. Ou, se ontem não era, hoje acaba de tornar-se.
De
volta ao balcão, Maria Lúcia pede outro chopp. Perdeu os amigos, mas isso pouco
importa no momento. O importante mesmo é não ser encontrada por Vinícius de
Moraes, o irmão do grande amigo de Adail Afonso ou, traduzindo para o contexto
atual, o rapaz com quem ela fez a besteira de dar uns amassos e que agora quer
repetir a brincadeira. O problema é que Malu não compartilha da mesma vontade.
Quer é passar longe de confusão e, para isso, precisa manter distância de Adail
Afonso e de todos os seus amigos e conhecidos.
Embora
Adail permaneça mandando e-mails desesperados a fim de qualquer tipo de
reconciliação, Malu jura que quer distância. Além do mais, por favor, né.
E-mails? Quem em pleno 2011 utiliza-se de correio eletrônico para tentar reatar
com a namorada? Já inventaram SMS, telefone e até campainha. “Não, pensando
bem, que bom que ele não aparece na minha porta”, ela suspira de alívio.
Depois, volta-se para o barman e solicita: “Duas tequilas, moço, por favor”.
São pouco mais de 18h, a festa ainda está só no começo. Ela volta-se para a
pista de dança, decidida – a quem? Na verdade, a qualquer coisa, só quer é
tirar o ex da cabeça. Eis que uma potencial lembrança caminha até ela em passos
largos. É Vinícius de Moraes, que está, aparentemente, ainda mais decidido.
–
Malu, dança comigo?
–
Vinícius... – ela contrai os lábios e olha discretamente para cá e para lá.
Quer segurar a mão do primeiro conhecido que passar para evitar o diálogo com o
jovem plantado diante dela.
–
Estava com saudade de você – ele acrescenta, tentando tocá-la e aproximando-se
cada vez mais.
–
Vinícius, desculpa, mas você sabe muito bem que o que aconteceu entre nós não
pode se repetir.
–
Por que não pode? Foi bom. Eu gostei. Você gostou. Não tem por que não se
repetir.
Não,
ela não gostou. É péssima a sensação de buscar em outros rapazes todos o
carinho que Afonsinho não pode – ou não quer, o que é mais doloroso de
acreditar – lhe oferecer. Pior ainda é encontrar afeto em abraços alheios –
como acontecera com Vinícius de Moraes – e rejeitar porque, no fundo, ela não
quer substituir Adail Afonso. Quer a versão original. Mas Vinícius não pode
saber disso. Neste instante, nem ela sabe direito. Ou, pelo menos, não admite.
–
Porque é errado – responde, esquivando-se – Com licença, Vini, preciso procurar
meus amigos.
Malu
vira as duas doses de tequila e vai para a pista de dança sozinha mesmo. É hora
de aproveitar a festa.
As
horas se esvaem, a tequila borbulha nos corpos e os “bróders de balada” curtem
o evento, cada um a sua maneira.
Por
volta das 20h30, Maria Lúcia reencontra Elis Regina:
–
Onde você estava? Procurei você em todo canto.
Regina
tenta se recompor. Ajeita a saia e limpa os lábios com as costas da mão, na
tentativa de tirar o batom borrado. Malu logo compreende.
–
Quem é ele, safadinha?
–
Você não conhece... Cadê os meninos? – Regina desvia, às pressas, o foco da
conversa para outro assunto qualquer. Ela sempre faz isso. Nunca quer contar ou
fazer nada, até ficar bêbada.
–
Não sei, eu realmente procurei vocês pela festa inteira, por horas. E nada...
Que tal a gente anunciar no microfone que estamos procurando por eles?
–
No microfone? – Elis Regina acha a ideia da amiga engraçada.
–
Sim... E aproveitamos para puxar papo com o cara gatinho da banda – Maria Lúcia
aponta para o jovem ao lado da caixa de som, com um pandeiro na mão. Em seguida,
vai para perto do palco, cutuca o rapaz e sussurra algo em seu ouvido.
Pouco
depois, ele noticia ao microfone:
–
Octávio, Octávio, suas amigas estão aqui no palco esperando por você, Octávio.
Contudo,
nem assim Miguel Octávio aparece. Já Regina desaparece pela segunda vez. Agora,
com João Amazonas. Na noite anterior, na casa de Mirela Miranda, os dois
trocaram beijos e carícias. Os recentes acontecimentos fazem com que, ao cair
da noite de sábado, nasça neles o desejo de repetir a dose. É o que fazem
madrugada adentro, dessa vez, na casa de Elis Regina. Abandonam a festa,
todavia, sem levar em conta um detalhe: ela está com os documentos e dinheiro
de Maria Lúcia, já ele carrega nos bolsos todos os pertences de Miguel Octávio
e Luiz Dagoberto.
Quando
o relógio soa 22h e as luzes do salão se acendem, Malu reencontra os amigos.
–
Miguel, Luiz, vocês viram a Regina? Ela está com as minhas coisas.
–
Não vi. Também não vi o João, ele está com nossas vidas nos bolsos. Mas estou
vendo, neste instante, o Ricardo Antônio aqui – Octávio puxa pelo braço um
rapaz alto e muito bonito – Maria Lúcia, este é meu amigo e colega de
faculdade, ele é modelo, 1 metro e noventa de pura formosura. E este é
Ronaldão, amigo do Ricardo.
Enquanto
o trio recém apresentado troca cumprimentos, Migule Octávio retira-se de
fininho e vai, em pulos desengonçados, dialogar com outros grupos.
Malu
inventa qualquer assunto com os colegas do amigo e pensa com seus botões: “Em
uma coisa Octávio está coberto de razão, este tal de Ricardo Antônio é mesmo um
metro e noventa da mais pura formosura. Que pitel!”.
Não
demora muito, os seguranças começam a pedir aos convidados que se retirem ,
pois precisam fechar o espaço. Maria Lúcia junta-se a Luiz Dagoberto, que está
com três meninas, aparentemente, tentando resolver um dilema.
–
Aconteceu alguma coisa? – pergunta Malu, preocupada.
–
Ô, Malu... – Luiz D. atenta-se para a presença da amiga – Esta aqui é a
Robertinha! Minha grande amiga e colega de faculdade.
Robertinha
é uma garota de sorriso simpático, cabelos negros e longos e baixa estatura.
Luiz D. alimenta por ela uma espécie de paixão secreta e, até aquele dia,
bastante discreta. Sendo sincera, talvez não se trate de paixonite, talvez seja
só desejo ou mera curiosidade. O fato é que, até então, ele nem desconfiava que
é correspondido. Mas, mais cedo naquela mesma noite, uma amiga de Robertinha,
embriagada, fez o favor de revelar que o sentimento é mútuo, deixando Luiz D.
nervoso e sem graça, só que disposto a tomar uma atitude.
–
É o seguinte, Maria Lúcia, parece que a sua amiga e o meu amigo foram embora da
festa com nossas coisas. E eles não vão voltar. – Luiz D. esclarece a situação,
meio irritado com os companheiros, porém, sem deixar de se divertir.
–
A Regina? E o João?
–
Eles mesmos.
–
Aaaah, eu vou matar a Elis Regina! – Maria Lúcia estremece de raiva. E agora?
Não tem dinheiro para voltar para casa, muito menos carona. Não pode ligar para
os pais, eles estão cuidando da irmã pequena, não vão querer busca-la. “Ai, ai,
Elis Regina vive aprontando dessas e sou eu quem paga o pato”, resmunga consigo.
Luiz
D. traz a solução:
–
Olha, a Robertinha está sozinha em casa e ela disse que eu e o Miguel Octávio
podemos ir pra lá. Posso conversar com ela, explicar que você também está sem
teto.
–
Por favor, Luiz D.! Não tenho nada no bolso ou nas mãos... – Maria Lúcia
implora por ajuda.
Robertinha
aceita de pronto os novos hóspedes e, juntamente com a amiga que já ia dormir
em sua casa, acomoda todos no carro e dirige velozmente para algum lugar na Asa
Sul.
A
casa está vazia, parece que estão de mudança, mas a juventude se acomoda com
facilidade. Miguel Octávio e Maria Lúcia jogam um colchão na sala, Robertinha e
Luiz D. estendem cobertas no chão e a amiga da anfitriã usa uma cama que ainda
perdura na residência.
Na
sala:
Octávio
abraça a amiga e prepara-se para interrogá-la.
–
Qual é a história com o tal do Adail, Malu?
–
Ah, nada demais. Ele é louco, sabe? Assim, de verdade, não é brincadeira não,
já precisou de tratar mesmo.
Miguel
Octávio não se mostra muito convencido. Ela conta algumas histórias, tentando persuadi-lo.
Ele dá de ombros.
–
E aquele outro rapaz? O com nome de compositor...
–
Pois é, aquele, outra história complicada...
–
É ele que não é tão, ahnn, como podemos dizer... Avantajado?
–
Que? Como você sabe disso? Quem foi que te falou?
Octávio
ri compulsivamente.
–
É sério! Como você sabe? – Maria Lúcia está em pânico.
–
Você não se lembra? A Mirela Miranda contou no “eu nunca” na casa dela. Além do
mais, entre a gente não existe frescura nem segredos, somos uma rede.
–
Uma rede?
–
Sim, A rede!
Eles
riem e Maria Lúcia explica a história, ilustrando o caso com os dedos.
Miguel
Octávio, esperto que é, não perde tempo. Achega-se mais e mais perto da amiga.
Quando a garota se dá por conta, estão quase dormindo, abraçados. Ela protesta:
–
O que você tá fazendo? Para que dormir tão perto?
–
Ué, “bróder de balada” também pode tirar casquinha... – justifica o rapaz.
Ela
ri. Mas o afasta com um empurrão.
–Sai
pra lá, Octávio, quero dormir.
Ele
indigna-se:
–
Aaaah, você sempre quer dormir!
Contudo,
a garota nem escuta a reclamação, antes disso, pega no sono. Revoltado por Malu
tê-lo deixado, pela segunda vez, falando sozinho, Miguel Octávio a empurra do
colchão e vai até o corredor. Se ele não vai se dar bem, Luiz D. também não
vai.
Ele
chega no instante exato em que Robertinha está deitada sobre o peito do amigo e
suas bocas estão a milímetros de distância, prontas para um romântico beijo. A
seu modo octaviano, joga-se no meio dos dois, gritando sons desconexos. Estraga
a cena de amor só para transformá-la em uma boa história de amizade. É que a
trama agora é sobre isso, eles são um grupo de amigos que vivem inusitadas
aventuras. Sem romances. Ao menos até o próximo capítulo.
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