terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Ep. 6 – Um brinde aos amigos de Twitter

Use Somebody by Kings of Leon on Grooveshark


Manhã de janeiro. Soraia Cristina abre o armário atrás de sua mesa, à procura de uma antiga agenda do partido, com o objetivo de extrair informações para a genealogia comunista. A jovem se depara com uma caixa fechada com três barrinhas de cereal sabor banana, presente de seu Inácio que, outro dia, reparou que Soraia passava a manhã inteira sem comer e ficou preocupado. Sol não gosta de banana. Ficou emocionada com o gesto e guardou o lanche no armário, para um dia em que a fome apertasse.

O celular toca. O número é conhecido, mas a menina fica surpresa e tensa com o motivo da ligação. É a sogra. Ou melhor, a mãe de seu ex-namorado, dona Ruth.

— Alô?

— Já começou a fase de reclusão?

— Quê?

— Ah, não se faz de desentendida, Sol...

— Do que você está falando, Diego? – não é dona Ruth, é Diego Leonardo ligando do telefone da mãe.

— Do seu aniversário. Você sempre se esconde do mundo na semana do seu aniversário.

— Ah...

— E aí, qual vai ser a programação?

— Não sei. Não estou querendo fazer nada.

* * *

Bate-papo do Facebook, 15 de janeiro

Júlia Roberta: Amiiiiigs
Vai fazer o que no seu aniversário?

Soraia Cristina: nada?

Júlia Roberta: até parece
você sabe que a Helena não vai te deixar em paz
você vai ter que fazer algo


* * *

Bate-papo do Facebook, 15 de janeiro

Helena Patrícia: amiga, que história é essa que você não vai fazer nada no seu aniversário?
Temos que fazer alguma coisa!

Soraia Cristina: não tô muito a fim. Sempre fico deprimida porque é janeiro, as pessoas viajam e eu fico chateada quando não vai ninguém pro meu aniversário.

Helena Patrícia: deixa disso! Vamos comemorar!

Soraia Cristina: ok, o que você sugere? Sair pra comer? Vamos ao mexicano?

Helena Patrícia: eu queria ir num pub. Já foi no Walls?

Soraia Cristina: oi? Você num pub? Hahahaha
Ok, depois dessa, tenho que topar

Helena Patrícia: vai ter cover de Kings of Leon, na sexta! Eu adoro essa banda!

Soraia Cristina: Eu também! Então combinado?

Soraia Cristina chama algumas dezenas de amigos para comemorar seu aniversário sexta-feira, no Walls, pub localizado na 403 Sul, onde acontecerá o cover da banda que ela adora e só conhece duas músicas. O convite é feito via Facebook e Twitter. Entre os convidados está Gabi, namorada de Fabrício, que é melhor amigo de Diego. E Carlos Daniel, amigo de Gabi, Fabrício e Diego Leonardo.

* * *

Gtalk, 21 de janeiro – 20h48

Diego: ainda em casa?

Soraia: oi

Diego: vai rolar a parada ainda?!

Soraia: no walls?

Diego: sim!

“Que cara de pau!” – pensa Soraia. Ela está perplexa. Não convidou Diego, por motivos óbvios: quer distância do rapaz. E agora ele surge do nada, como se estivesse tudo bem entre os dois, como se fossem grandes amigos e ele tivesse sido convidado.

Soraia: não sei
rolar vai, né, só não sei se vou
hsausauhsauha

Diego: sóóó pode crer... tava esperando o Zeca ligar aqui pra confirmar se nego vai lá!

Soraia: huuuum
mas eu acho q não vou não
não tenho roupa
HAUSHUASHUASU

Diego: ¬¬"
tava prevendo isso...
transferência é domingo e acho q ia despilhar também
mas vou ver o que rola

Soraia: :)

Diego: ... tchau Sol
até!

Soraia: até

Soraia está sem reação. Que conversa foi essa? Mas não dá tempo de refletir sobre o assunto, porque Diego retoma o papo, disposto a arrancar de Sol algum sentimento.

Diego: Não se preocupa, vou não tá! Tô forçando só pra manter a social.

Soraia: hahahah
eu já tinha desistido antes de saber q vc ia ;)

Diego: Não ia! Era a social mesmo.

6 minutos depois

Diego: Um dia aprendo a retribuir sua frieza... e paro de forçar a barra pra ter sua consideração!

Sol está se esforçando muito para ser simpática, segurar a onda, não mandar Diego para o inferno e pedir que suma de sua vida. Eles não terminaram porque ele a traiu ou outra coisa imperdoável. Eles terminaram porque Soraia cansou de segurar a barra dele. Diego não era uma pessoa por quem Soraia sentia alguma admiração. Tampouco era alguém que lhe dava alguma segurança. Pelo contrário. Ela se cansou de ter que ser a sensata, de ter que ser responsável e não gostava da dependência que ele tinha dela. Soraia queria uma relação em que ambas as partes fossem equivalentes. Ela cansou de se preocupar com os maus hábitos alimentares do namorado e seu sedentarismo e excesso de peso. Não queria mais ficar com alguém que não respondia por seus atos e mentia não ter fumado, quando seu cheiro dizia o contrário. Sol não queria mais ter que sair de casa no sábado de manhã pra buscar o namorado que dormiu no centro acadêmico da faculdade, porque gastou todo o dinheiro que tinha na balada da noite anterior com os amigos e não sobrou dois reais pra pegar um ônibus pra casa. Ela já tinha passado a infância e adolescência sendo a filha e irmã "madura e responsável" que segura a barra da mãe adolescente, da irmã rebelde e da irmã caçula. Soraia estava farta de dar conta dos problemas dos outros. Era a hora de cuidar dos seus próprios problemas. 

Soraia: qual é?

Diego: nada, Sol... não é nada

"Ninguém merece uma DR por nada no aniversário", pensa. 

Soraia: não é porque você espera alguma coisa de mim que eu vou retribuir

Diego: haha
espero nada não... e pode acreditar... não espero mesmo...

Soraia: não é o que parece

Diego: Não posso querer nem conversar?

Soraia: pode ué
mas vc encerrou a conversa e depois veio reclamar da minha frieza

Diego: depois lê a conversa... vê minha intenção... e se coloca no meu lugar! realmente queria ir... não ia por conta da prova de domingo... tinha gente querendo ir.
ia dar a ideia pro Zeca, q me chamou pra sair hoje!

Soraia: eu não consigo te entender
sério
toda vez que a gente se encontra fica um clima estranho
e você queria sair pro mesmo lugar que eu, no meu aniversário
e vem me dizer isso
e depois diz q não ia
e você queria que eu fizesse ou dissesse o quê?

Diego: tá bom... eu e meu maldito impulso...
esquece isso...
esquece tudo, tá? realmente eu não deveria querer ir... só quis... ia com os caras... tava pensando em passar lá pra te dar um abraço e depois ir pra Universidade do Cerrado, tá tendo HH.
ou outra coisa... mas acabo não conseguindo expressar o que realmente queria dizer ou fazer...
vc sempre termina essas conversas cheia de razão, e eu acabo saindo cheio de culpa e arrependimentos...

Soraia: eu prefiro quando você é sincero
sabe, quanto mais você mente e tenta disfarçar, mais você se enrola, mais confusa fica a conversa, e mais você consegue me irritar
você mente mal pra caramba, sempre sei quando você tá mentindo e isso me tira do sério, porque é o mesmo que subestimar minha inteligência. É me chamar de burra.

Diego: tenho prova domingo e isso me impede realmente de fazer alguma coisa. Isso não é mentira... Mas pensei q não seria má ideia passar lá pra te ver... dar um oi!

Soraia: você ia pagar 15 reais pra entrar, me dar um oi e ir embora?

Depois daquela conversa, Soraia perde a vontade de sair. Avisa todo mundo que não vai mais. Tamires Raquel, amiga de faculdade, a convence de sair pra fazer qualquer coisa, nem que seja ir ao cinema. Soraia Cristina olha para o vestido verde que havia passado logo depois de chegar do estágio. Não vai deixar que Diego Leonardo com seus “impulsos”, mentiras e arapucas atrapalhe seus planos. Nem, tampouco, vai se deixar abater pelo fato de que Helena Patrícia e Júlia Roberta, as amigas que a instigaram a sair, foram as primeiras a furarem a programação – a avó de Júlia teve um ataque cardíaco e o namorado de Helena tinha prova domingo e não queria sair na sexta. Sol coloca o vestido, calça um salto preto, pega as chaves do carro e vai buscar Tamires Raquel.

As duas chegam ao pub no momento em que Os Reis do Rodeio começam a tocar Use Somebody. Soraia agarra a mão da amiga:

— Adoro essa música!

E arrasta Tami pelo braço, escada abaixo, até a frente do palco. O lugar não estava nem cheio, nem vazio. No meio dos grupos de amigos assistindo a apresentação, Sol identifica um rosto conhecido. A menina é assaltada por um largo sorriso que se instala em sua cara e se recusa a sair. Um sorriso que vem de dentro, sem explicação aparente. Ela pula no pescoço do rapaz, em um abraço de amigos que não se veem há tempos.

— Carlinhos!

— Sol! Parabéns!

— Obrigada.

Os dois se afastam e perguntam um como vai a vida do outro. Carlos Daniel olha em volta e pergunta a Sol se aqueles são os convidados da festa dela.

— Não. Só vieram você e a Tamires pro meu aniversário. Nem a amiga que sugeriu o cover veio.

— Então, um brinde aos amigos de Twitter! – Carlinhos ergue sua long neck verde.

— Não! Nem foi uma amiga de internet, foi uma amiga de infância!

— Eu tô falando de mim – Carlinhos sorri.


Ela sorri de volta e se dirige ao balcão para comprar uma cerveja.


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Ep.5 – Nada no bolso ou nas mãos

Kids by MGMT on Grooveshark

8h20 da manhã, em um apartamento não identificado no começo da Asa Sul:
O celular toca.
– Onde você está?
– Na Asa Norte, mãe…
– Na casa de quem? Você não ia dormir na Regina?
Maria Lúcia se espreguiça suavemente, espia ao redor e tenta disfarçar o sono na voz:
– Eu tô na casa da Robertinha, uma menina que conheci na festa.
– Como assim conheceu na festa? E a Regina? – A mãe não parece convencida.
– É que a Regina foi embora com meus documentos e meu dinheiro e eu vim pra cá com meus amigos.
– Que amigos?
– Ah, uns amigos meus e do Rei.
– Mas o Rei não é o melhor amigo do Alejandro Jaime? – Alejandro Jaime fora o primeiro namorado de Maria Lúcia, amor dos tempos de escola, assim como a amizade, ou, a princípio, inimizade com Túlio Reinaldo, que, à época, não gostava da menina e se mordia todo de ciuminho do melhor amigo com a namorada. A mãe acrescenta: – Ele nem gostava de você!
– Sim, mas agora gosta. Ele é meu amigo. Já faz um tempo, mãe…
– Tá, e ele tá aí?
– Não.
– Então como você foi parar aí?
– Eu vim com meus amigos da festa da semana passada. Ah, e a Robertinha é amiga de uma menina que estudou comigo. A Mari...
– Vem logo pra casa!
Malu ouve o bip-bip do celular, agora sem interlocutor do lado de lá. Embora possa parecer, não, ela não mentiu para a mãe em relação ao endereço. Nem teria por que, foi sincera demais no restante do diálogo. É que é difícil explicar o inesperado. Ela acredita de fato que está na Asa Norte e fica surpresa ao questionar a dona da casa quanto ao endereço e descobrir que, na realidade, encontra-se na Asa Sul.
A justificativa é simples: ela e os companheiros acabam de despertar para a manhã de domingo, após a terceira festa dos “bróders de balada” – como eles se intitularam – em uma semana. E que festas! Vocês se lembram das anteriores, certo? Pois é, agora multipliquem por três. Na tarde anterior, Maria Lúcia esbarrou com os novos amigos, outra vez, em mais um evento universitário. Vamos voltar um pouquinho no tempo...
Tarde de sábado, um dia após o episódio do pulo do gato.
Previsão de chuva, assim é janeiro no Planalto Central.
Maria Lúcia e Elis Regina entram no clube. Fizeram um acordo para aquele semestre: frequentariam todos os churrascos ofertados pelo cardápio de cursos da Universidade do Cerrado. Os churrascos, para quem não está a par, são festas, em sua grande maioria, nas quais ninguém vê resquícios de carne ou qualquer outra opção alimentícia. Em compensação, os organizadores servem os convidados com bebida para dar e vender. Álcool liberado para quem quiser se embriagar de juventude e inconsequências. O que, por acaso, costuma ser a intenção do público.
Nossas personagens não fogem à regra. Mal entram no recinto, já correm para o bar. Em frente ao balcão de bebidas, dá-se o encontro. Novamente, não programado. Mas parece que o céu de Brasília quer encostar no lago e vem mexendo uns pauzinhos para reunir essa turma e assistir de camarote suas confusões, que vão colocar a cidade de cabeça para baixo.
Miguel Octávio avista as meninas sem demora:
– Garotas! Vocês por aqui. Que prazer revê-las! Este é meu amigo, Luiz Dagoberto, exímio dançarino, um rapaz elegante, que esbanja charme e bom-humor. João Amazonas também está por aí, avulso.
Invariavelmente animado, Octávio carrega trejeitos de humorista. O amigo sorri, com timidez inicial. Mas, assim que o companheiro esclarece quem são as moças, ele sente-se à vontade para entrosar-se.
Luiz D. é, de fato, bonito e elegante. Contudo, não leva o menor jeito com as mulheres. Não sabe ao certo como abordar as pretendentes, sente-se coagido pelas moçoilas. É o que ocorre, por exemplo, na sequência da festa. Lá está ele, em frente ao banheiro, diante de uma jovem atraente, sem saber o que dizer. Quando dá por si, já soltou a pergunta:
– Com licença, uma informação. Onde fica o banheiro feminino?
Sua mente alcoolizada gira e mistura um turbilhão de ideias, até provocar-lhe náuseas. O que foi isso? O que ele fez? Eles estão exatamente na porta do banheiro, de um lado está o dos homens, do outro, o das mulheres. A placa com uma figura de saia na porta mais à direita não deixa dúvidas. “Ela vai pensar que sou retardado”, supõe. “Vai pensar que sou louco”. Ele se pune internamente pela desastrosa cantada, enquanto aguarda a reação da garota. Ela não hesita, agarra Luiz D. pelo pescoço e arranca-lhe um beijo estrondoso, repleto de fortes mordidas.
O rapaz está incrédulo. “Funcionou! A cantada do banheiro funcionou!” – pensa, ao mesmo tempo em que sente o ardor das mordiscadas da parceira. E não pode deixar de acrescentar aos pensamentos: “Ai, esta menina é uma mordedora!”.
Simultaneamente, porém, do outro lado da parede, Regina tira a roupa, apressada, com a ajuda de um rapaz alto, de bigode bem desenhado, que já se encontra despido. Ela e Malu têm esse acordo de frequentar todos os churrascos e o maior número possível de festas. O objetivo real do trato é aproveitar ao máximo este período da vida ou, em outros termos, a faculdade.
Quando morava no interior da Bahia, Regina sonhava em passar no vestibular na capital do país. O sonho voava longe e imaginava que, ao se realizar, ela poderia fazer o que quisesse, na hora que bem entendesse, como e com quem estivesse a fim. Sabem, liberdade. Ser universitária é ser livre. Por isso mesmo, no dia anterior, ela rompera o conturbado relacionamento que tinha com Teodoro. Queria sair da prisão e realizar todas as suas loucuras. Se enfiar no banheiro com um desconhecido era uma delas. Ou, se ontem não era, hoje acaba de tornar-se.
De volta ao balcão, Maria Lúcia pede outro chopp. Perdeu os amigos, mas isso pouco importa no momento. O importante mesmo é não ser encontrada por Vinícius de Moraes, o irmão do grande amigo de Adail Afonso ou, traduzindo para o contexto atual, o rapaz com quem ela fez a besteira de dar uns amassos e que agora quer repetir a brincadeira. O problema é que Malu não compartilha da mesma vontade. Quer é passar longe de confusão e, para isso, precisa manter distância de Adail Afonso e de todos os seus amigos e conhecidos.
Embora Adail permaneça mandando e-mails desesperados a fim de qualquer tipo de reconciliação, Malu jura que quer distância. Além do mais, por favor, né. E-mails? Quem em pleno 2011 utiliza-se de correio eletrônico para tentar reatar com a namorada? Já inventaram SMS, telefone e até campainha. “Não, pensando bem, que bom que ele não aparece na minha porta”, ela suspira de alívio. Depois, volta-se para o barman e solicita: “Duas tequilas, moço, por favor”. São pouco mais de 18h, a festa ainda está só no começo. Ela volta-se para a pista de dança, decidida – a quem? Na verdade, a qualquer coisa, só quer é tirar o ex da cabeça. Eis que uma potencial lembrança caminha até ela em passos largos. É Vinícius de Moraes, que está, aparentemente, ainda mais decidido.
– Malu, dança comigo?
– Vinícius... – ela contrai os lábios e olha discretamente para cá e para lá. Quer segurar a mão do primeiro conhecido que passar para evitar o diálogo com o jovem plantado diante dela.
– Estava com saudade de você – ele acrescenta, tentando tocá-la e aproximando-se cada vez mais.
– Vinícius, desculpa, mas você sabe muito bem que o que aconteceu entre nós não pode se repetir.
– Por que não pode? Foi bom. Eu gostei. Você gostou. Não tem por que não se repetir.
Não, ela não gostou. É péssima a sensação de buscar em outros rapazes todos o carinho que Afonsinho não pode – ou não quer, o que é mais doloroso de acreditar – lhe oferecer. Pior ainda é encontrar afeto em abraços alheios – como acontecera com Vinícius de Moraes – e rejeitar porque, no fundo, ela não quer substituir Adail Afonso. Quer a versão original. Mas Vinícius não pode saber disso. Neste instante, nem ela sabe direito. Ou, pelo menos, não admite.
– Porque é errado – responde, esquivando-se – Com licença, Vini, preciso procurar meus amigos.
Malu vira as duas doses de tequila e vai para a pista de dança sozinha mesmo. É hora de aproveitar a festa.
As horas se esvaem, a tequila borbulha nos corpos e os “bróders de balada” curtem o evento, cada um a sua maneira.
Por volta das 20h30, Maria Lúcia reencontra Elis Regina:
– Onde você estava? Procurei você em todo canto.
Regina tenta se recompor. Ajeita a saia e limpa os lábios com as costas da mão, na tentativa de tirar o batom borrado. Malu logo compreende.
– Quem é ele, safadinha?
– Você não conhece... Cadê os meninos? – Regina desvia, às pressas, o foco da conversa para outro assunto qualquer. Ela sempre faz isso. Nunca quer contar ou fazer nada, até ficar bêbada.
– Não sei, eu realmente procurei vocês pela festa inteira, por horas. E nada... Que tal a gente anunciar no microfone que estamos procurando por eles?
– No microfone? – Elis Regina acha a ideia da amiga engraçada.
– Sim... E aproveitamos para puxar papo com o cara gatinho da banda – Maria Lúcia aponta para o jovem ao lado da caixa de som, com um pandeiro na mão. Em seguida, vai para perto do palco, cutuca o rapaz e sussurra algo em seu ouvido.
Pouco depois, ele noticia ao microfone:
– Octávio, Octávio, suas amigas estão aqui no palco esperando por você, Octávio.
Contudo, nem assim Miguel Octávio aparece. Já Regina desaparece pela segunda vez. Agora, com João Amazonas. Na noite anterior, na casa de Mirela Miranda, os dois trocaram beijos e carícias. Os recentes acontecimentos fazem com que, ao cair da noite de sábado, nasça neles o desejo de repetir a dose. É o que fazem madrugada adentro, dessa vez, na casa de Elis Regina. Abandonam a festa, todavia, sem levar em conta um detalhe: ela está com os documentos e dinheiro de Maria Lúcia, já ele carrega nos bolsos todos os pertences de Miguel Octávio e Luiz Dagoberto.
Quando o relógio soa 22h e as luzes do salão se acendem, Malu reencontra os amigos.
– Miguel, Luiz, vocês viram a Regina? Ela está com as minhas coisas.
– Não vi. Também não vi o João, ele está com nossas vidas nos bolsos. Mas estou vendo, neste instante, o Ricardo Antônio aqui – Octávio puxa pelo braço um rapaz alto e muito bonito – Maria Lúcia, este é meu amigo e colega de faculdade, ele é modelo, 1 metro e noventa de pura formosura. E este é Ronaldão, amigo do Ricardo.
Enquanto o trio recém apresentado troca cumprimentos, Migule Octávio retira-se de fininho e vai, em pulos desengonçados, dialogar com outros grupos.
Malu inventa qualquer assunto com os colegas do amigo e pensa com seus botões: “Em uma coisa Octávio está coberto de razão, este tal de Ricardo Antônio é mesmo um metro e noventa da mais pura formosura. Que pitel!”.
Não demora muito, os seguranças começam a pedir aos convidados que se retirem , pois precisam fechar o espaço. Maria Lúcia junta-se a Luiz Dagoberto, que está com três meninas, aparentemente, tentando resolver um dilema.
– Aconteceu alguma coisa? – pergunta Malu, preocupada.
– Ô, Malu... – Luiz D. atenta-se para a presença da amiga – Esta aqui é a Robertinha! Minha grande amiga e colega de faculdade.
Robertinha é uma garota de sorriso simpático, cabelos negros e longos e baixa estatura. Luiz D. alimenta por ela uma espécie de paixão secreta e, até aquele dia, bastante discreta. Sendo sincera, talvez não se trate de paixonite, talvez seja só desejo ou mera curiosidade. O fato é que, até então, ele nem desconfiava que é correspondido. Mas, mais cedo naquela mesma noite, uma amiga de Robertinha, embriagada, fez o favor de revelar que o sentimento é mútuo, deixando Luiz D. nervoso e sem graça, só que disposto a tomar uma atitude.
– É o seguinte, Maria Lúcia, parece que a sua amiga e o meu amigo foram embora da festa com nossas coisas. E eles não vão voltar. – Luiz D. esclarece a situação, meio irritado com os companheiros, porém, sem deixar de se divertir.
– A Regina? E o João?
– Eles mesmos.
– Aaaah, eu vou matar a Elis Regina! – Maria Lúcia estremece de raiva. E agora? Não tem dinheiro para voltar para casa, muito menos carona. Não pode ligar para os pais, eles estão cuidando da irmã pequena, não vão querer busca-la. “Ai, ai, Elis Regina vive aprontando dessas e sou eu quem paga o pato”, resmunga consigo.
Luiz D. traz a solução:
– Olha, a Robertinha está sozinha em casa e ela disse que eu e o Miguel Octávio podemos ir pra lá. Posso conversar com ela, explicar que você também está sem teto.
– Por favor, Luiz D.! Não tenho nada no bolso ou nas mãos... – Maria Lúcia implora por ajuda.
Robertinha aceita de pronto os novos hóspedes e, juntamente com a amiga que já ia dormir em sua casa, acomoda todos no carro e dirige velozmente para algum lugar na Asa Sul.
A casa está vazia, parece que estão de mudança, mas a juventude se acomoda com facilidade. Miguel Octávio e Maria Lúcia jogam um colchão na sala, Robertinha e Luiz D. estendem cobertas no chão e a amiga da anfitriã usa uma cama que ainda perdura na residência.
Na sala:
Octávio abraça a amiga e prepara-se para interrogá-la.
– Qual é a história com o tal do Adail, Malu?
– Ah, nada demais. Ele é louco, sabe? Assim, de verdade, não é brincadeira não, já precisou de tratar mesmo.
Miguel Octávio não se mostra muito convencido. Ela conta algumas histórias, tentando persuadi-lo. Ele dá de ombros.
– E aquele outro rapaz? O com nome de compositor...
– Pois é, aquele, outra história complicada...
– É ele que não é tão, ahnn, como podemos dizer... Avantajado?
– Que? Como você sabe disso? Quem foi que te falou?
Octávio ri compulsivamente.
– É sério! Como você sabe? – Maria Lúcia está em pânico.
– Você não se lembra? A Mirela Miranda contou no “eu nunca” na casa dela. Além do mais, entre a gente não existe frescura nem segredos, somos uma rede.
– Uma rede?
– Sim, A rede!
Eles riem e Maria Lúcia explica a história, ilustrando o caso com os dedos.
Miguel Octávio, esperto que é, não perde tempo. Achega-se mais e mais perto da amiga. Quando a garota se dá por conta, estão quase dormindo, abraçados. Ela protesta:
– O que você tá fazendo? Para que dormir tão perto?
– Ué, “bróder de balada” também pode tirar casquinha... – justifica o rapaz.
Ela ri. Mas o afasta com um empurrão.
–Sai pra lá, Octávio, quero dormir.
Ele indigna-se:
– Aaaah, você sempre quer dormir!
Contudo, a garota nem escuta a reclamação, antes disso, pega no sono. Revoltado por Malu tê-lo deixado, pela segunda vez, falando sozinho, Miguel Octávio a empurra do colchão e vai até o corredor. Se ele não vai se dar bem, Luiz D. também não vai.
Ele chega no instante exato em que Robertinha está deitada sobre o peito do amigo e suas bocas estão a milímetros de distância, prontas para um romântico beijo. A seu modo octaviano, joga-se no meio dos dois, gritando sons desconexos. Estraga a cena de amor só para transformá-la em uma boa história de amizade. É que a trama agora é sobre isso, eles são um grupo de amigos que vivem inusitadas aventuras. Sem romances. Ao menos até o próximo capítulo.



terça-feira, 26 de novembro de 2013

Ep. 4 – Então, boa sorte

Breakout by Foo Fighters on Grooveshark


Soraia Cristina acordou decidida. De hoje não passaria. Ia fazer o maldito teste. A visita de Diego Leonardo no dia anterior havia sido perturbadora o suficiente para encorajá-la, ou, ainda, tirá-la completamente do eixo. Ela precisava apaziguar o espírito. Uma semana antes do natal, Diego ligou para contar que Gabi estava grávida de Fabrício. De repente, no meio da conversa, como de costume, ele começou a falar sobre os dois, perguntar por que haviam terminado, por que não poderiam voltar, e fez uma revelação.

— Você não está grávida também, Sol?

— Não! Por que tá me perguntando isso?

— Ah, sei lá, nunca entendi por que você resolveu terminar. Achei que, talvez, você pudesse ter terminado porque estava grávida.

— Que ideia...

— Sabe, na última vez que transamos, eu já estava sentindo que você ia terminar comigo de novo. Aí eu tive uma ideia maluca. Pensei em furar a camisinha, porque você não tava mais tomando remédio, aí, se você engravidasse, ficaríamos juntos pra sempre...

— Você o quê? – Soraia Cristina exclamou perplexa.

— Não fiz isso. Calma.

— Você é louco! Gente! Não acredito no que estou ouvindo! Você é louco! Eu nunca te perdoaria!

— Eu não te contaria...

— Você é louco! Você está doente! Precisa se tratar! – Soraia Cristina estava indignada – Vei, não tô acreditando nisso...

— Relaxa, Sol... um dia você vai entender...

— Entender o quê?

— Nada. Um dia você vai perceber... deixa estar...

— Não estou te entendendo. Perceber o quê? O que você fez? Do que você está falando?

— Um dia... um dia você vai perceber...

— Ok. Tenho que desligar.

Depois daquela conversa, Sol suspeitou que ele tivesse mesmo furado a camisinha, e que ela pudesse estar grávida. Durante algum tempo, sentiu os sintomas da gravidez. Estava atrasada, engordou dois quilos, sentia enjoos, não tinha vontade de comer e seus peitos estavam inchados e doloridos. Para piorar, para onde quer que olhasse, via anúncios de produtos para grávidas e bebês. E todo mundo parecia estar engravidando. Suas amigas, as namoradas dos amigos, as pessoas na rua, nos filmes, nas novelas. Para onde quer que olhasse, via grávidas e bebês. Aquilo só podia ser um sinal.

Estava naquela agonia havia semanas, mas não tinha coragem de fazer um teste. Só que, agora, aquela conversa voltou a perturbá-la. A visita de Diego Leonardo mostrou o quanto ele estava transtornado com o fim do relacionamento. Soraia resolveu, então, que faria o teste de gravidez.

Levantou, se arrumou e pegou um ônibus para a W3 Sul. Durante a viagem de uma hora entre Taguatinga o Pátio Brasil, Soraia Cristina só pensava em quando seria a melhor hora para comprar e fazer o teste. Decidiu que esperaria até às 10 horas, quando o shopping abrisse. Ela desceria da torre de salas empresariais onde fazia estágio até o centro comercial, compraria o teste na farmácia e o faria no banheiro do Pátio mesmo.

Chegou ao partido às 9h. Entre uma pesquisa e outra para a genealogia comunista ou para os verbetes da agenda da fundação do partido, Soraia sentia o estômago embrulhar de ansiedade. Mal conseguia se concentrar. O relógio do computador marcou 10 horas e ela achou que era melhor deixar para o fim do expediente. Seu chefe havia chegado e tinha muito trabalho a fazer. Aquela manhã estava sendo eterna. Às 13h, seu Inácio, chefe de Soraia, saiu para almoçar. Ela ficaria até às 14h. Mas seu estômago doía, ela não podia mais conter a ansiedade. Não havia mais ninguém no partido. Todos haviam saído para almoçar. Às 13h30, Soraia Cristina desligou o computador e estava trancando a sala, quando um rapaz surgiu, perguntando pelo Fábio da informática.

— Tá todo mundo almoçando.

— Ah, é que eu tenho uma entrevista com ele, às 14h. Mas ainda tá cedo.

Soraia Cristina ficou interessada no rapaz. Era a primeira vez que se interessava assim, de cara, por alguém que nunca tinha visto antes. Não era amor à primeira vista, mas, no momento em que olhou para ele, e trocaram as primeiras palavras, Sol se sentiu atraída por Juninho, um rapaz sorridente, de estatura mediana, cabelos escuros e lisos e barba por fazer. Mais do que atração, Sol teve uma sensação de identificação, como se eles já se conhecessem de outro lugar, ou de outras vidas. Ela ficou meio abobada, sem saber se ia embora ou se ficava ali, fazendo sala até o Fábio ou outra pessoa chegar.

— Err... eu tô indo embora, tenho que trancar a sala... mas...

— Tudo bem, não se preocupe, eu espero aqui fora.

— Então tá. – Soraia virou as costas e trancou a sala. – Então, boa sorte – e sorriu para Juninho.

 Obrigado – ele sorriu de volta.

Soraia atravessou o corredor em direção ao elevador sorrindo. Por alguns instantes esqueceu daquilo que a afligia e se sentiu leve e feliz. De repente ela não estava mais grávida de Diego Leonardo. O dia estava lindo, o sol brilhava maravilhosamente num céu inacreditavelmente azul para uma tarde de janeiro brasiliense. Janeiro costuma ser chuvoso no cerrado.

Quase desistiu de ir à farmácia comprar o teste. Ela estava convencida de que tudo ia bem, não estava grávida. Mas, se estava tudo bem, se o dia estava tão lindo, então aquele era o melhor dia para fazer o teste e poder ficar verdadeiramente leve. Foi à farmácia. A principal relutância em fazer o teste era justamente porque Sol morria de vergonha de comprar um teste de gravidez. Quase como se estivesse cometendo um delito, a menina esguia, com pouco mais de 1,50m de altura, entrou na farmácia usando óculos escuros, pegou um teste qualquer, pagou e procurou um banheiro no shopping onde pudesse fazê-lo.

O resultado deu positivo.

Soraia ficou parada, olhando para as duas linhas vermelhas do palitinho, tentando absorver aquele resultado. Depois de algum tempo, ela estava olhando na expectativa de que ele mudasse. De que uma das linhas desaparecesse. Não desaparecia. Leu toda a embalagem e o papel que vinha dentro da caixinha. Seu coração estava tão acelerado que parecia que seu peito ia explodir e o coração ia sair pulando pelo banheiro. Ela sentia que seu rosto estava vermelho de raiva. Sua cabeça começou a doer. Soraia deve ter ficado uns cinco minutos que pareceram uma eternidade dentro do espaço pequeno do banheiro, olhando para o teste e pensando em esganar Diego Leonardo. Ela queria bater com a cabeça dele na parede, queria arrancar cada pedaço dele com um alicate, queria amarrar Diego e tacar fogo.

Jogou o teste no lixo, saiu do banheiro, lavou as mãos, olhou-se no espelho, respirou fundo e saiu andando pelo Pátio Brasil, cega de raiva. Sua cabeça não parava. Um milhão de pensamentos por segundo. Soraia Cristina queria matar Diego Leonardo. Mas não simplesmente mata-lo. Tinha que ser uma morte lenta e dolorosa.

Entrou na farmácia novamente e comprou outro teste. Desta vez, não usava óculos escuros, mas estava tão, ou mais constrangida quanto da primeira vez. “Devem estar pensando que o teste deu positivo”, pensou.

Voltou ao banheiro e o teste deu negativo. “Eu devia ter comprado outro”. Soraia resolveu que não ia voltar pra comprar um terceiro teste. Ela também não estava podendo rasgar dinheiro. Decidiu que acreditaria no último teste. Mas, antes de chegar em casa, passou em outra farmácia, comprou um terceiro teste e o fez em casa. Deu negativo de novo. Sol respirou aliviada e concluiu que não estava grávida e que deveria, definitivamente, manter distância de Diego Leonardo.