Soraia Cristina estava ansiosa, atenta aos movimentos da rua. A qualquer momento uma buzina poderia anunciar a chegada da encomenda que tanto esperava. Era uma tarde da primeira semana de janeiro. Sol deveria ter ido trabalhar, afinal, foi por causa de seu estágio que voltou mais cedo de Cabo Frio e passou o réveillon em casa, sozinha, com dor de barriga. Mas a encomenda chegaria naquele dia, de acordo com o site dos Correios, e, se ela saísse de casa, não teria ninguém para receber – sua família estava passando as férias na casa de praia.
De repente, uma buzina.
– Casa 46, correio!
Soraia levanta de um salto da cadeira em frente ao computador e corre para a garagem. Recebe a encomenda com um largo sorriso no rosto. Entra em casa e, com as mãos trêmulas, abre o pacote. Sobre a caixa retangular preta, letras garrafais prateadas desejam: “Feliz natal! Feliz Rock in Rio”. A moça de cabelos castanhos e cílios compridos está radiante. Abre a caixa, pega o cartão e ensaia algumas fotos. Queria compartilhar o entusiasmo, mas não tem com quem. Em outros tempos, a primeira reação seria correr para o telefone e contar a Diego Leonardo. Mas, se ainda estivesse namorando Diego, provavelmente não estaria recebendo aquela encomenda, muito menos planejando a viagem. Soraia Cristina publica a foto no Twitter e pergunta para Tamires Raquel se o ingresso dela também chegou.
A campainha toca. Sol vai até a porta de vidro da sala, espiar quem está ao portão. Um rapaz mediano, gordinho, barbudo, vestindo um moletom cinza e um boné azul marinho espera na calçada. “É o Diego Leonardo?”, se pergunta Soraia. Volta para os fundos da casa, pega as chaves que estão em cima da mesa e sai pelo corredor lateral em direção à garagem.
– Oi. – diz Soraia, abrindo o portão para Diego Leonardo.
– Oi Solzinha, tudo bem? – Diego a abraça.
Diego está tremendo. Ela fecha o portão desconcertada e o convida a entrar. “O que ele está fazendo aqui?”
– Eu estava passando aqui perto e fiquei com vontade de te ver.
– Aqui perto? Onde?
Ele não soube responder. Gaguejou.
– No... na... ia passar no Gelly, deixar... pegar um negócio. Ele não tava, aí pensei em vir aqui pra não perder viagem.
Ela estava de saco cheio das mentiras dele. Embora não se vissem havia mais de um mês, Soraia Cristina percebeu, com Diego ali diante dela, que não sentia mesmo a falta dele. O que sentia era a falta da amizade, da companhia, mas não da pessoa.
– Sorte sua, então, me encontrar em casa. Era pra eu estar viajando. Ou no Partido.
Eles já estavam no fundo da casa. Soraia Cristina perguntou se ele queria sentar, apontando a sala de TV.
– Ah é, voltou mais cedo de Cabo Frio por causa do estágio?
– Sim.
– E por quê não foi trabalhar hoje?
– Tava esperando o ingresso do Rock in Rio chegar.
– Chegou?
– Sim, agorinha.
– Posso ver?
– Pode.
.
.
Soraia entrou pela cozinha e atravessou o corredor, em direção ao seu quarto. Diego a seguiu. Ela pegou a caixa em cima de sua cama e a entregou a Diego. Ele ainda estava trêmulo. Ao segurar a caixa, seu nervosismo ficou ainda mais evidente. Ele mal podia abri-la e pegar o cartão, do tanto que tremia.
– Você está bem?
– Que legal, Sol. Então você vai mesmo?
– Vou.
– Poxa, legal. Eu estou vendo se vou também. Tem uma galera querendo alugar uma casa...
– Legal.
Soraia riu por dentro. Desacreditava naqueles planos.
– Cadê todo mundo?
– Em Cabo Frio.
– Você voltou sozinha?
– Sim.
– Por quê?
– Por causa do estágio.
– Legal, Solzinha – Diego lhe estendeu a caixa com o ingresso.
Era estranho ouvir Diego chamá-la de "Sol", "Solzinha", e não de "amor". Soraia pegou a caixa e jogou em cima da cama. Passou por Diego, que estava parado no mesmo lugar à porta de seu quarto e atravessou o corredor de volta, em direção à sala de TV. O rapaz, ainda trêmulo, a seguiu.
– E como está o estágio novo? Tá gostando?
– Sim. Meu chefe é um senhorzinho muito gente boa. Super inteligente e cheio de histórias. Ele foi segurança do Prestes.
– Nossa! Que legal!
– Sim.
– Sinto sua falta, Sol.
Eles estavam sentados em sofás diferentes, um de frente para o outro.
– Não faz isso, Diego.
– Não faz isso o que? Como você quer que eu me sinta? É claro que vou sentir sua falta. Foram quatro anos, Sol. Quatro anos. Não dá pra esquecer de um dia pro outro. Você não pode me arrancar da sua vida assim!
– Tá vendo? É disso que estou falando. Para de me cobrar. Para de falar como se eu tivesse pegado quatro anos da sua vida e jogado fora. Eu não te amo mais e não é culpa minha. Eu não posso ficar com você só porque você diz que me ama e está sofrendo.
– Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que ca...
– Para com isso, Diego – pediu Soraia, virando os olhos, num tom de súplica com ares de tédio.
– Eu quero você – Diego segurou as mãos de Soraia Cristina, que desviou o olhar. – Desculpa.
Soraia soltou suas mãos das mãos de Diego e começou a brincar com as chaves.
– Sabe o que isso significa? – perguntou Diego.
– Isso o quê?
– Ficar brincando com as chaves.
Ela sorriu. Lembrou de um filme que haviam assistido juntos, em que um conselheiro amoroso explicava que quando a mulher fica brincando com as chaves diante da porta de casa, adiando sua entrada, ela quer um beijo.
– Pode significar várias coisas, depende do contexto.
– E o que significa agora, Sol?
– Não está óbvio pra você?
Diego Leonardo se aproximou de Soraia Cristina, que se desvencilhou.
– É claro que não significa que eu quero um beijo.
– Então o que você quer?
– Que você vá embora.
– Odeio quando você me manda embora da sua casa. Odeio quando você faz essas coisas. Não sei por que eu insisto nisso, Sol. Eu gosto de você e me recuso a acreditar que você não me ama mais. Eu vou mudar. Eu mudei. Eu tentei fazer dar certo, mas você me tirou da sua vida.
– Você tentou quando já era tarde.
– Para de falar como se só eu tivesse sido responsável pelo fim. Você também fez coisas ruins. Você também errou...
– Mas não sou eu que estou querendo voltar.
Soraia Cristina estava surpresa com sua frieza. Desde que haviam terminado, todas as outras vezes que conversaram, ela chorou diante dele. Mas, naquele dia, seus olhos estavam tão secos quanto seu coração. Soraia não sentia vontade de chorar, não havia arrependimento. Ela não estava mais confusa com relação a Diego. Se ela tinha alguma certeza, era que não queria voltar. O alívio que sentira na última vez que terminaram fora determinante para que ela percebesse que não o amava. Não o queria. Estava melhor ali, assim, sem ele. E já não era mais afligida pelo medo de nunca mais encontrar alguém que a amasse. Também não se sentia atraída por Diego.
Diego Leonardo já estava de pé. Soraia Cristina continuava brincando com as chaves.
– Tudo bem, Sol. Só não me diga para desistir. Porque eu não quero. Eu não vou.
Ele a abraçou e os dois ficaram envolvidos no meio da sala por longos segundos. Diego acariciou os cabelos lisos de Sol e fitou seus olhos castanhos. Ela desviou seus olhos dos olhos cor de mel dele. Diego tentou beijá-la. Ela se esquivou, mas estava pesa nos braços dele. Tentou empurrá-lo, no intuito de se desprender do abraço, mas Diego Leonardo a agarrou com mais força e quis beijá-la. Soraia Cristina o empurrava e pedia que a soltasse, enquanto ele a beijava pelo pescoço e rosto, numa tentativa desesperada de despertar um sentimento qualquer que ainda pudesse estar adormecido, escondido ou perdido em algum lugar, mas tudo que ela sentia era um misto de repulsa, angústia e vontade de sair dali.
– Me solta. Para com isso. Eu não quero. Por favor, para! Por favor! Por favor, vai embora.
Ele a soltou. Ela caminhou em direção à garagem e abriu o portão para Diego.
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