quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Ep. 1 – A Festa do Twitter

The Time (Dirty Bit) by The Black Eyed Peas on Grooveshark


Maria Lúcia apanha o celular do bolso e, mais uma vez, pressiona a seta para baixo, permitindo que o cursor corra veloz pela extensa lista de contatos. É noite de sábado no planalto central. A juventude se espalha por vias, superquadras e quadras comerciais feito calangos do cerrado. É sempre assim. As horas são longas peregrinações em busca de diversão, que não passa de oásis sob o céu oceânico deste deserto. No fim, o dia amanhece, enquanto a gente se abriga debaixo de qualquer bloco, posto ou banca de cachorro-quente. Alguns desses dias não mudam em uma vírgula o curso dos demais. Outros poucos, podem modificar o enredo inteiro.

Malu nem desconfia, mas deixar a tela do celular descansar sobre o número de Túlio Reinaldo é atalho rápido para os episódios mais desvairados da novela mexicana que é sua vida. Digita habilmente cinco letras e um espaço e endereça a mensagem de texto para o rapaz, questionando: “e hoje?”. Em seguida, volta-se para Elis Regina, que caminha apressada em direção à fila da boate. Elas estão no início da asa norte de Lucio Costa, em um estabelecimento hipster da moda na cidade. Uma dúzia de indivíduos se acumula diante da porta de entrada. As garotas suspiram, prevendo uma noite sem grandes emoções.

De repente, Maria Lúcia sente o celular vibrar como uma esperança. “Festa do Twitter. Vem!”, indica o torpedo.

– É o Túlio Reinaldo nos chamando para uma tal de Festa do Twitter! Falei que ele sempre sabe o que fazer nas vazias noites de sábado.
– O amigo de todos os seus ex-namorados, Maria Lúcia? Agora você resolveu ser amiga dele também? – Elis Regina está perplexa.
– Ah, nada demais! Só descobrimos que a gente tem muito em comum. Por exemplo, atração por festas estranhas e mais ainda por gente esquisita – responde a menina, empolgada com a possibilidade de encontrar ambas as coisas no convite do novo amigo.

Ainda que contrariada com a postura leviana da companheira de balada, Regina aceita dar meia volta e entrar no carro. Seguem rumo à casa de desconhecidos na altura do lago Paranoá. Após uma parada rápida no mercado – onde compram bebida e convidam para o evento dois sujeitos simpáticos igualmente ociosos na madrugada de sábado –, desembarcam no endereço indicado. O relógio revela que passa da 1h. Elas saltam do veículo e localizam a residência já de longe, pela música.

Túlio Reinaldo vai, em delicados pulos de uma embriagada felicidade, de encontro às duas. “Venham! Vou apresentar meus amigos para vocês”, exclama, enrolando a língua, de leve, enquanto abraça hora uma, hora outra, mais por questão de equilíbrio do que para demonstrar afeto. O trio caminha a passos largos pelo quintal repleto de música, risadas, beijos, garrafas, copos e outros tantos resquícios do quão divertida está a noite.

– Rei, por que diabos o evento se chama Festa do Twitter? – indaga Malu, ao perceber que não há qualquer referência a rede social no espaço.
– Porque divulgaram no Twitter! – retruca ele, achando a pergunta boba.

A garota dá de ombros. Em seguida, param diante de uma roda com três rapazes:

– Estes são Miguel Octávio, Marcello Gregório e Sandro Paraná – anuncia Túlio Reinaldo, enquanto os demais se voltam para Malu e Regina em reverências diversas, todas claramente alcoolizadas.

Elas não demoram a se entrosar. Dançam e interagem com os recém-conhecidos. Miguel Octávio é atrapalhado e sai aos saltos a abraçar os companheiros, um a um, entre risinhos de quem sabe andar com elegância na linha tênue entre o engraçado e o inconveniente. Sandro Paraná não é bicho do cerrado, está na capital de passagem e caiu ali de paraquedas. É um simpático grupo de amigos, exceto, talvez, por Marcello Gregório, que, a Malu, parece apenas esquisito, com um jeito muito calado e introspectivo.

Na sequência, a menina esbarra com ele na fila do banheiro, ele segura a mão dela com firmeza e a fita com toda a intensidade que seus olhos azuis esverdeados conseguem transmitir. Depois a solta, sem dizer palavra. Vai ver, bebeu demais e não faz mais coisa com coisa, pensa Maria Lúcia. Mas gente esquisita é parte essencial de qualquer boa festa. A situação deixa Malu meio atordoada. Ela puxa Regina pelo braço e ambas adentram a casa, onde se deparam com outra fila, desta vez com dois ou três gatos pingados a espera. Um dos jovens reconhece Maria Lúcia:

– Você é a ex-namorada do Adail Afonso, não é?

Sim, ela é. Mas prefere não lembrar. Está juntando forças para apagar por completo Adail da memória. A verdade, contudo, é que ainda alimenta, as escondidas, os restos da paixão malsucedida dos dois. Afonsinho é um amor inacabado, que flutua silencioso na lembrança de Malu, dia após dia. Só que de noite – em especial, nas noites de festa – ninguém precisa saber.

– Sou... – responde, sem graça, e logo emenda outro assunto, tentando disfarçar o embaraço.

Por que será que em Brasília a gente esbarra no passado a cada esquina? Okay, o elemento urbanístico “esquina” não consta no projeto local. Contudo, não faltam encruzilhadas cheias de amores mal resolvidos.

– Vamos dançar, Malu, esquece isso – diz Elis Regina, de mansinho, conduzindo a amiga para a pista de dança.

Regina não gosta nem um pouco de Adail Afonso, sabe a dimensão do estrago que o rapaz fez no coração de Maria Lúcia. Em meio a Festa do Twitter, numa agradável madrugada de janeiro de 2011, enquanto se remexe timidamente ao som de The time, de Black Eyed Peas – a música do momento – nem imagina que a história pode se agravar mais e mais. Basta esperar os próximos capítulos...

Dois jovens cercam as moças e as convidam para dançar. Malu volta-se para a outra, com expressão de dúvida estampada no rosto. Regina acena afirmativamente, indicando que ela aceite o convite e divirta-se. É o que Maria Lúcia se empenha em fazer, ao iniciar animado diálogo com um deles. De longe, consegue ver, do outro lado da pista, o garoto que perguntou sobre Afonsinho a observá-la.

A dança é interrompida por gritos:

– Ei, ei! Vocês são as meninas que nos falaram sobre a festa – constata um rapaz, ao apertar bem os olhos com o intuito de ver melhor – Obrigada! Tá muito boa!
– Você é um dos caras do mercado! – reconhece Malu.
Todos se põem a rir. De súbito, Túlio Reinaldo aparece, ofegante e agitado:
– Vocês tem que ver! O Miguel Octávio está com uma garota que é o triplo do tamanho dele. Ele não consegue fechar os braços na hora de abraçá-la – comunica, já arrastando as amigas para o gramado.

A informação é absolutamente verídica. Miguel Octávio, magro como uma vara de pescar, está debaixo de uma árvore a beijar apaixonadamente uma menina três vezes mais pesada que ele. O casal percebe a movimentação do grupo e decidem se retirar. Vão para o carro e lá permanecem, até o raiar do dia, enquanto a festa corre tranquila. Nem todo sábado em Brasília é tedioso. Às vezes, a gente arruma o que fazer para matar o tempo.

– Que tal a gente ir para o posto da 4 ver o dia amanhecer? – sugere Rei, com empolgação.
– Sério? Logo o da 4? – reclama Maria Lúcia, chateada.
– Qual o problema com o posto? – indaga Sandro Paraná.
– É do lado da casa do ex dela – Reinaldo adianta-se na resposta – mas vamos, Malu, a uma hora dessas o Afonsinho está no vigésimo sono. Vai ser divertido!
– É, vamos, eu te protejo do ex se você topar me dar uma carona até lá – oferece Paraná, com ar de galanteio.

Maria Lúcia sorri:

– Tudo bem, mas te aconselho usar o cinto, comecei a dirigir semana passada.

Eles sobem nos respectivos carros e aceleram, cortando eixos e recortando tesourinhas. No fim, o dia amanhece e a juventude se abriga debaixo de um posto qualquer. Quando planejaram a cidade, escreveram a lápis, nas entrelinhas, que Brasília é cenário ideal para os embalos da paixão de quem cresce entre blocos e pilotis. Já o cerrado, essa vegetação contorcida, é pano de fundo para novela mexicana. Quer conhecer a nossa?



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